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PORTAL PORTUGUES

A REVOLUÇÃO INTELECTUAL DA ESTRELA DA MANHÃ

 

 

CRY&S

 

PRÉ-HISTÓRIA DO CRISTIANISMO E FUNDAÇÃO DO REINO DE DEUS

 

EM NOME DE JESUS CRISTO

 

PRÓLOGO EU SOU A PORTA

CAPÍTULO 1 ORIGENS

CAPÍTULO 2 A CRIAÇÃO DOS CÉUS

CAPÍTULO 3 DE NOÉ A ABRAÃO

CAPÍTULO 4 DE ABRAÃO A DAVI

CAPÍTULO 5 DE DAVID A CIRO, O GRANDE

CAPÍTULO 6 CIRO, O GRANDE

CAPÍTULO 7 DE CIRO A CRISTO

 

EPÍLOGO

 

PRÓLOGO

 

EU SOU A PORTA

 

A Memória do Homem, criado à imagem e semelhança do seu Criador, remonta a sua história à Fundação do Cristianismo pelo Filho de Deus; é a partir da Memória da Raça Humana, o Livro escrito pelo seu Pai, que a nossa Inteligência eleva os nossos olhos para a Criação dos Céus e da Terra, o nosso Universo, na cuja História descobrimos a Existência do seu Criador, sem cujo Conhecimento o Homem, por si só, não pode penetrar no Conhecimento da História do Cosmos. Fechada esta Porta pelo Acontecimento descrito no Génesis, os homens, desterrados do Conhecimento de todas as coisas, para o qual foram chamados pelo Verbo «Façamos o Homem à nossa imagem e à nossa semelhança», mas com a inteligência ativa na Alma Humana, a incapacidade de atravessar essa Porta levou os homens a inventarem um deus pessoal a partir do qual visualizar o Cosmos e o Universo, religiões que impuseram os seus deuses à força das armas, como se pode ver ao ler a História da Origem do Hinduísmo e do Islão. A impossibilidade de encontrar essa Porta que abre o Conhecimento de Deus e da Sua Criação à inteligência humana levou Deus a encarná-la na Pessoa do Seu Filho, para que os homens buscassem Nele a Sabedoria. Aqueles que a atravessaram ergueram-se entre os homens para serem os Pais da Doutrina da Igreja, com os seus livros a afastar os povos cristãos das religiões inventadas pelos homens, à imagem e semelhança dos deuses dos quais foram criados os seus pais, eles próprios e os seus filhos — religiões sangrentas, das quais as entranhas não podiam dar à luz senão homens à imagem e semelhança dos seus deuses.

A Memória do Homem Cristão tem na Vinda do Filho de Deus a plataforma histórica a partir da qual ergue os olhos para Deus, nosso Pai, e, a partir de Deus e do seu Filho, entra na História do nosso Universo. Foi com a fundação do Cristianismo que a Civilização começou a deixar para trás a Lei do mais Forte, do mais Sanguinário, do mais Mentiroso, do mais Corrupto e Traidor do seu povo e dos seus irmãos, e abriu caminho desde a Barbárie até às Primeiras Universidades do Mundo, na Europa Cristã, com a Igreja Católica como mecenas das Letras, do Direito, das Ciências e das Artes. Sendo a origem de toda a alma um mundo, durante milénios, escravizado à lei da Guerra até à Morte entre irmãos, ninguém podia esperar que, da noite para o dia, todos os cristãos, sacerdotes e reis, acordassem santos. A História da Cristandade Medieval defende melhor do que mil volumes esta realidade. O espírito da profecia que habitou nos Apóstolos deixou-o por escrito: «A fé, que se corrompe». A fundação da Casa de Deus no Género Humano ficou sujeita, desde a sua Origem, a um Futuro aberto a tempestades, terramotos, tsunamis, dilúvios e todo o tipo de ataques e cercos naturais, até uma guerra aberta entre o Mundo Pagão e o Mundo Cristão. O Mundo Pagão seria sucedido por novos exércitos ao serviço da Morte, tendo como horizonte de vitória a destruição da Casa de Deus na Terra. O Império Romano teve o seu sucessor no Império Islâmico. Duas forças distintas, um mesmo objetivo histórico. No entanto, o Filho de Deus viu chegar o Anticristo, a força fratricida interna que, nascendo no cristianismo, herdaria o espírito de Caim. Arrio foi o primeiro de todos aqueles que, tendo nascido no seio do cristianismo, se levantou contra o povo católico, declarando guerra à sua Mãe, a Igreja Católica, da qual foi libertada da destruição por Constantino, servo de Deus. A Palavra de Deus não mente: «As portas do inferno não prevalecerão contra a Esposa do Senhor». Quinze séculos mais tarde, o Anticristo emergiu do túmulo: primeiro vestido com um hábito de frade, para depois se coroar sobre as nações europeias que, abominando a Coroa do Rei dos Céus, se proclamaram chefes das igrejas nacionais, somando assim a um crime civil um delito contra o Deus que fez do seu Filho o Chefe Universal de todas as igrejas. A Guerra dos Trinta Anos estava servida. O mesmo fim que tiveram o Império Romano e o Império Islâmico, a destruição do Cristianismo, foi herdado por aqueles que, tentados pelo Diabo, não conseguiram resistir à sua tentação: «Ajoelha-te e dar-te-ei todos os reinos do mundo». Assim, o bastão do Império passou do Oriente para o Ocidente, voltou de novo para o Oriente e regressou ao Ocidente; unidos ambos os impérios no mesmo ódio ao mundo católico, protestantes e otomanos alcançariam a vitória que foi negada aos romanos e aos muçulmanos. Onde repousam hoje ambos os impérios? O Verbo é Deus: «As portas do inferno não prevalecerão contra a TUA Casa». É por isso que se fala do Antigo Testamento, porque houve um Novo, assinado com o sangue do Testador: «A tua Descendência tomará posse das portas dos seus inimigos». Assim, se no Antigo Testamento Deus conferiu indestrutibilidade à Esposa do seu Filho, no Novo concede invencibilidade à sua Descendência nascida desta Esposa e do seu Senhor, o Nosso Pai Jesus Cristo.

A Memória do Género Humano é a História da Criação do Homem enquanto filho de Deus: «à imagem e semelhança do Primogénito de Deus», que se fez Homem para que aquilo que, por nós próprios, não conseguimos, nem jamais teríamos conseguido alcançar, o tivéssemos «connosco»; a Memória desse Acontecimento é a Rocha, a Coluna sobre a qual se funda a nossa Vida.

A nossa História começa noutro Mundo, remonta à Criação do Cosmos e penetra no Ser de Deus, o seu Criador, pela mão do seu Unigénito, sem o qual, tal como nos tempos antigos, ninguém conseguiu compreender a Origem do Cosmos, e para satisfazer a necessidade de conhecimento universal para a qual o Homem foi criado, foram inventadas cosmologias e deuses à imagem e semelhança dos quais justificassem os seus genocídios, os seus crimes e as suas paixões fratricidas. Uma vez rejeitada pelo anticristianismo a Mão do Filho de Deus, impôs-se entre as nações a mesma lei antiga; fechada a Porta da Sabedoria Divina, os homens inventaram um Universo à medida dos seus reis, um universo sujeito à Lei do Mais Forte, aos pés do qual a vida e a existência dos Fracos devem ser esmagadas em nome da Sobrevivência da sua classe e linhagem. O Anticristo, o mesmo que antes veio oculto numa batina de confiança, surgiu imediatamente após a Primeira Verdadeira Guerra Mundial, a Guerra dos Trinta Anos, oculto no traje do cientista. Impedido o ateísmo científico de abrir a Porta da Sabedoria, cuja chave está na mão de quem disse: «EU sou Aquele que abre e ninguém pode fechar, aquele que fecha e ninguém pode abrir», no seu Orgulho Animal, a Ciência abriu as suas entranhas à versão moderna de Caim e Abel, Estaline e Hitler, os seus filhos, ambos filhos do mesmo pai, o Diabo, Satanás, a Serpente Antiga. Sob o ódio mútuo, a destruição do Mundo Cristão como objetivo de ambos, pelo qual lutaram perante os olhos do seu pai Maligno para herdar o Cetro do Império, o século XX foi lançado nos campos do inferno das Guerras Mundiais.

Esta é a nossa História, a História de todos os cristãos da Plenitude das Nações. Os nossos povos sobreviveram a terramotos, maremotos, dilúvios, cerco infernais, guerras de genocídio, calamidades mortíferas de privação. NÃO é obra nossa; a Vitória pertence àquele que fundou a sua Casa sobre a Rocha: essa Rocha é o Verbo do seu Pai, YAVÉ DEUS, Criador da Luz do Cosmos e das Trevas que o rodeiam. Na Palavra do seu Pai, o seu Filho depositou a sua Confiança. Nessa Palavra, nós, a sua Descendência, depositamos a nossa Confiança, à sua imagem e semelhança, uma Confiança todo-poderosa e indestrutível, a partir da qual sabemos que não importa as Alianças das Civilizações que se renovem para derrubar a Casa do nosso Lado, todos os seus ataques irão esbarrar contra as suas Muralhas, pelo que quem tiver inteligência entre os seus inimigos compreenda que o ataque final que estão a levar a cabo, erguendo uma Ideologia cuja Semente tem na Morte a sua Origem, está destinado a ser arrancado e lançado ao fogo. Afaste-se todo aquele que tenha inteligência dessa Aliança das Civilizações, sob cuja força anticientífica e anticristã essa ideologia de género espera extirpar do Homem e da Mulher a Imagem do Filho de Deus.

Que vos sirva de lição a indestrutibilidade da Casa fundada pelo nosso Pai em nome de Deus, para aqueles que, tentados pelo poder e pelas riquezas, acreditam que a Aliança do Islão com o socialismo realizará o que nenhum império conseguiu nestes 2000 anos. A Aliança firmada entre Deus e o Homem pelo seu Filho, selada com o Sangue de Cristo e dos seus Irmãos no Espírito Santo, já demonstrou a sua indestrutibilidade. Retirem-se, pois, todos os homens e mulheres dessa Aliança das Civilizações e abandonem essa Ideologia de Género sem olhar para trás; porque o próprio Filho que conquistou uma Aliança de Indestrutibilidade para a Sua Esposa, a Igreja Católica, conquistou como herança para a Sua Descendência a Invencibilidade; uma vez nascida esta Descendência, a sua Glória vive na Palavra do seu Deus: «A tua descendência tomará posse das portas dos teus inimigos».

 

PRIMEIRO CAPÍTULO

1

Origens.

 

Assim, todas as coisas que nos afetam e que compõem a História da Plenitude das Nações tiveram o seu início noutro Mundo, noutro lugar do Cosmos, num Mundo situado para além das estrelas dos nossos Céus, mesmo no coração do reino das galáxias. Ali, precisamente no centro da sua Criação, Deus criou para si próprio um Mundo; o Mundo de onde o seu Filho desceu ao nosso, e para o qual regressou após a sua Ressurreição.

«EU não sou deste Mundo». Muitas vezes o Filho de Deus o disse, mas as suas palavras não encontraram ouvidos que lhes prestassem atenção nem inteligência que compreendesse a sua mensagem. Uma das vezes em que falou com maior clareza sobre o seu Mundo de origem, fê-lo na presença dos seus juízes: «O meu Reino não é deste Mundo; se o meu Reino fosse deste mundo, os meus ministros teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus, mas o meu Reino não é daqui».

Noutras ocasiões, Jesus Cristo voltou ao tema da sua Origem e não hesitou em deixar claro que Ele não é deste nosso Mundo, e que deixou o seu Mundo e desceu ao nosso para nos libertar da Ignorância e conduzir-nos à Verdade. Sem a Verdade Universal, o juízo crítico da inteligência não tem o Poder de abrir caminho para um Futuro num mundo sujeito à Lei da Morte. Pois a Liberdade só se exerce quando o Pensamento tem o Poder de julgar e escolher a direção da sua Vida. Sem esta Verdade Universal, o futuro da Vida fica à mercê do acaso, das circunstâncias, das coincidências, do karma, do caos criador da perfeição Suprema, ou seja, a falácia das falácias no mundo das quimeras.

A Verdade Universal é Divina tanto porque Deus a fez Sua, e Se tornou uma coisa única com a Verdade, «EU sou a Verdade», como porque é Universal em si mesma.

«Pó és e ao pó voltarás» foi a Lei do Cosmos durante a Eternidade das eternidades. A Vida e a Morte eram as duas faces dessa Realidade Cosmológica a que chamamos «A Não-Criação». A Não-Criação passou, a Criação fez-se. A Morte e a Vida foram separadas. A Vida foi elevada à Natureza Existencial do Criador.

Deus não só se tornou uma única realidade com a Verdade Universal, como também acolheu no seu seio a Vida: «EU sou a Vida». É a Sua Glória. A Sua Liberdade Criadora não tem limites, a Sua Onisciência eleva a SUA Força até ao Todo-Poder e à Onipotência. Porque, como todos sabemos, o Poder que nasce da força sem a intervenção da Inteligência conclui a sua existência no caminho da destruição. Do que todos somos testemunhas.

Não só Deus viajou até ao núcleo das estrelas, das galáxias, da Vida e da Morte, crescendo em todas as ciências, tornando-Se Onisciente. O passo final que consagrou a YAVÉ DEUS como O CRIADOR, Causa Física do Novo Cosmos, foi tornar-se uma só coisa com aquela Sabedoria da qual Ele nos diz: «EU fui formado, e não haverá outro depois de mim». Pois quem é formado não se forma a si próprio; daí se compreende que, ao dizer Deus «Façamos o Homem à nossa imagem e semelhança», Adão fosse filho de Deus, ao mesmo tempo que se compreende que, ao rejeitar Deus como Mestre do seu Espírito, o homem deve recorrer aos animais para definir a sua existência, tal como Charles Darwin fez ao definir a Humanidade pelo Poder da Destruição, cujo fruto foi o canibalismo monstruoso do século XX, que pretende abrir caminho neste século e colidirá com aquela Sabedoria Incriada que estendeu a sua Glória sobre Deus e depositou nas suas Mãos os tesouros infinitos da Ciência da Criação de universos e mundos. Essa mesma Sabedoria que formou o Único Deus da Não-Criação e deixou nas Suas mãos a Vitória que só Ele poderia alcançar: a Criação da Árvore da Vida Imortal; essa mesma Sabedoria, que encarnou numa Mulher a Natureza da Relação Eterna entre Ela e Deus, tornou-se a Sua Esposa. E dela teve um Filho. E foi este Filho que veio do seu Mundo para o nosso, a fim de gerar em nós o Homem à sua imagem e semelhança, daí que sejamos chamados filhos de Deus.

Na História Universal Divina de Jesus Cristo, desenvolvi o tema da Origem desse Mundo de onde veio o Filho de Deus. Recordei, na medida do possível, as suas Crónicas, e segui o rasto das suas Guerras até ao ponto em que isso nos afeta diretamente a nós.

Creio ter dito então que Deus criou o Mundo de onde nos enviou o seu Filho para ser a sua Casa, a sua Pátria, o seu País, a sua Propriedade, o seu Paraíso. E criou-o à sua medida. Como fronteiras, deu-lhe o Amanhecer que voa sobre as asas do Infinito; como futuro, deu-lhe a Manhã que sempre amanhece e vive para sempre nos olhos da Eternidade. Ou seja, criou-o à imagem e semelhança da Ideia que vive no seu Espírito sobre a Natureza e a Constituição do Novo Cosmos que se propôs a erguer imediatamente após concluir a criação da sua Casa.

A Ideia do Cosmos que Deus teve em mente antes de intervir na Realidade Universal pode ser definida através de duas características principais. Primeiro, a expansão ad infinitum das suas fronteiras; e segundo, a evolução ad eternum do seu futuro.

Decidido a conferir um Centro geográfico ao Novo Cosmos, Deus deu a esse Centro um corpo, dotou-o de uma natureza própria, com a sua especificidade singular, única e irrepetível.

Nascido para ser o coração geográfico da Sua Criação, o Seu Mundo, o ponto de intersecção entre os dois vetores não criados, o Infinito e a Eternidade, dotou o seu corpo da indestrutibilidade natural do seu próprio Ser. O Seu Mundo, a Sua Casa, o Seu Paraíso. YAVÉ, Deus, foi sempre um nómada na Eternidade, um aventureiro no Infinito. E criou aquilo que nunca teve, o Seu Mundo, e criou-o sem limites de meios nem falta de imaginação.

 

2

E assim foi feito.

 

Como é que Deus criou o Seu Mundo não importa. No caso da criação do nosso Universo, o «como» importa sim. Na Introdução à Cosmologia do século XXI abordei este tema. Na História de Jesus Cristo afirmei que já teremos toda a vida eterna para conhecer este Mundo cuja Origem estamos a abordar. O que me leva a afirmar o que já afirmei anteriormente noutro local: que há coisas que se encontram dentro da nossa esfera de conhecimento e outras, como o Nascimento do Filho e do Pai em Deus Incriado, que escapam à compreensão da nossa inteligência.

Então, Deus ergueu no coração do seu Mundo uma Montanha. E no seu cume ergueu uma Cidade. Mas, sabendo que não são doze muros que fazem uma Casa, mas sim aqueles que vivem no seu interior, sonhou com Irmãos, Amigos, Filhos. Tal é a origem dos deuses do Céu.

 

3

Criação do Cosmos

 

Reduzindo a velocidade infinita o tempo de existência das galáxias que rodeavam o seu Mundo, YAVÉ DEUS reduziu as galáxias a energia luminosa, criando uma explosão de fogos de artifício de natureza cósmica, a que concordámos em chamar Big Bang por razões de simplicidade comunicativa.

Comparemos esta conversão à transformação de uma galáxia num canhão de feixes de energia microfísica que atravessam campos «espacotemporais» à velocidade «infinita». A diferença entre a velocidade inicial, igual à da luz, e a velocidade infinita, para a qual a matéria elementar é derivada num campo de espaço- tempo, transforma essa diferença em massa. Evidentemente, a transformação da energia cósmica em matéria estelar não se estende até ao infinito, devido ao limite da Implosão Astrofísica Natural a este processo cosmológico de criação de Matéria a partir da Energia criada pela própria Matéria.

Houve um Big Bang Original, de entrada, e outro de saída (redução da matéria astrofísica a energia cósmica e transformação da energia cósmica criada em matéria astrofísica). E este processo criador repete-se nas fronteiras do Cosmos, daí que os astrofísicos continuem a descobrir continuamente novas galáxias e aglomerados galácticos.

DEUS YAVÉ tem Testemunhas desta Criação. Também da Destruição do Cosmos Antigo; os seus Irmãos, os deuses de Yavé e de Sião, são as suas Testemunhas. Mas este Tema foi relatado na HISTÓRIA DIVINA DE JESUS CRISTO.

 

4

Os deuses antigos

 

À medida que o tempo foi passando, o Céu transformou-se num Reino, o Reino transformou-se num Império. A Casa de Deus encheu-se de filhos, cada um deles rei do seu Povo. Assim, após ter criado o Universo, Deus semeou a semente da Árvore da Vida nas suas águas e, das suas profundezas, a Vida concebeu-lhe um Mundo, dois Mundos, três Mundos, quatro Mundos, e foram até cinco os Mundos criados antes do Sexto Dia da Primeira Semana da Criação. No Sexto Dia, Deus criou o Homem.

Esta é a origem dos filhos de Deus, os deuses de tempos muito antigos.

 

5

O Berço do Homem.

 

Foram cinco os mundos que Deus criou e transportou dos seus locais de origem no Universo para o Seu Mundo, para o Seu Paraíso. O Homem ainda não tinha sido criado. Nem ainda existia na Mente do Criador a ideia do Homem.

A quem se questiona se há vida no Universo, responderemos que sim; nós estamos aqui. A quem se questiona se houve vida antes de nós, responderemos o mesmo: sim, não fomos os primeiros nem seremos os últimos. Se, então, nos perguntarem em que estrela, em que parte dos Céus habitam esses outros Povos do Universo, dizeremos que têm as suas Moradas no Mundo que Deus construiu para si, aquele que está Lá em Cima e no Centro da sua Criação, o Mundo de onde Jesus desceu e para onde Jesus Cristo regressou. Também nós teremos a nossa morada nesse mundo, e lá em cima encontrar-nos-emos todos e partilharemos a vida eterna para a qual fomos criados. No entanto, as notícias obrigam-nos, pelo que do futuro regressamos ao passado, aos dias em que o Inferno semeou a semente da guerra no Paraíso.

Foram duas as Guerras Universais que devastaram o Paraíso, mas o Céu nunca foi conquistado. As grandes batalhas pelo Trono do Rei dos reis e Senhor dos senhores estão escritas no Livro da Vida; nas suas páginas descreve-se como os Irmãos e os Filhos de Deus se mantiveram fiéis à Coroa do Unigénito, destruíram a força do Dragão, o Eixo dos Rebeldes, e, ao abrir o Selo da Fidelidade, os próprios elementos da Natureza do Céu se colocaram ao serviço dos seus Braços, belos, invencíveis, sábios e fortes. Tal como quem pede emprestado ao relâmpago o brilho e, com os seus lampejos nos olhos, avança contra as trevas, ou como quem faz da sua garganta a tenda do trovão e transforma o céu da sua boca no firmamento por onde corre o cavalo dos ventos, ou como quem, com um chicote, pede emprestado ao raio o seu mistério e, com as suas cordas elétricas, golpeia o dorso da Besta; assim, assim foi o contra-ataque maciço e fulminante dos Irmãos e dos Filhos de Deus contra as hostes do Inferno que, lideradas por Satanás, na ausência de Deus, se levantaram contra o Seu Império.

Por duas vezes o Dragão foi subjugado e capturado; e outras tantas vezes foram perdoados os Rebeldes. Pois, no seu amor de Pai, Deus acreditou que, com o tempo, os seus filhos rebeldes mudariam e, à medida que crescessem e amadurecessem, essa tendência para a guerra se extinguiria. Mas, vendo que os acontecimentos exigiam que Ele tomasse decisões revolucionárias: no sexto dia da primeira semana da Criação do Universo, Deus concebeu na Sua mente o Homem.

 

 

 

CAPÍTULO 2

 

6

CRIAÇÃO DOS CÉUS

 

Aconteceu, então, que Deus gerou a partir do seu Ser; e na Paternidade a sua mente e o seu coração encontraram a felicidade perfeita. Apresentou o seu Filho aos deuses, e estes adoraram-no.

Por fim, Deus começou a criar o nosso Universo. As galáxias colocaram os seus campos de estrelas ao serviço do seu Senhor; a partir dos cumes das suas cordilheiras, rios de sóis abriram caminho pelas planícies siderais. Tal como quem, à corrente impetuosa, fresca e alegre, coloca à frente uma onda gravitacional, aqueles leitos luminosos começaram a descer das alturas das galáxias do Aglomerado Local.

Esta é a origem do Universo. Como cordas gravitacionais a arrastar um comboio de sóis, de todas as magnitudes e cores, esses rios de estrelas desaguaram no oceano dos nossos Céus. Foi assim que o nosso Universo foi criado.

Comparamos as galáxias a altas cordilheiras, contra cujos cumes um canhão gigantesco disparou obuses colossais até fazer com que, das suas profundezas, surgissem rios de água luminosa. Agora, direcionamos esses rios para um leito marinho criado para recolher este volume de água proveniente de diferentes cadeias montanhosas. Este processo é o acontecimento que os filhos de Deus viveram durante a Criação dos nossos Céus.

Se compararmos agora as galáxias a balões quentes que, ao serem furados, disparam parte do seu ar, e misturarmos os processos, obtemos cordas gravitacionais que servem de leitos para rios de estrelas que desaguam num leito previamente preparado para acolher na sua área estes rios de estrelas.

YAVÉ DEUS cria o Leito Gravitacional e perfura as galáxias das quais emergem os rios de estrelas que rasgam os espaços e vão desaguar no Mar de Energia Gravitacional do qual se alimentará pela eternidade. Espetáculo maravilhoso, nunca visto por nenhuma criatura, espetáculo divino para o qual fomos convidados por YAVÉ DEUS, tal como lemos no Evangelho do seu Filho: «E criará obras maiores do que esta, de modo que fiqueis maravilhados».

 

7

Criação da Terra

 

Enquanto Pai, YAVÉ DEUS considerou que, se não abrisse a Criação aos seus filhos, com o passar do Tempo estes poderiam acreditar que o seu Paraíso não passa de um jardim zoológico no qual eles são mais uma espécie, uma espécie inteligente, mas, afinal de contas, uma espécie animal . Encerrados entre os limites do Paraíso, e aparentemente encerrados entre essas paredes para toda a eternidade, Deus quis afastar da mente dos seus filhos tal futuro. Assim, YAVÉ DEUS revolucionou o seu próprio Mundo, abrindo o Ato da Criação de Mundos e Universos, reservado até então ao seu FILHO JESUS, a todos os seus filhos.

O Espectáculo da Criação seguiu o seu curso.

Criados os nossos Céus, Deus abriu a Navegação através do Oceano das Galáxias. O que é impossível para a Criatura, navegar pela floresta das galáxias, porque a aproximação a velocidade Divina cria uma Floresta onde as árvores se abrem para dar passagem e se fecham assim que o navegador segue o seu caminho, foi o que viveram os filhos de Deus. Apenas o DEUS YAVÉ, para quem o Infinito é o seu Universo, tem o Poder de alcançar as fronteiras do Cosmos e regressar ao ponto de partida sem se perder no percurso de ida e volta. Galáxias que correm, voam, reúnem-se, separam-se... Um espetáculo maravilhoso, indescritível, inesquecível. E no final desta Viagem: «as Trevas que cobrem a face do Abismo», cuja existência os filhos de Deus conheciam pela boca dos Filhos do Céu. Pois todos nós, filhos de Deus, fomos criados fora do Mundo que Deus criou para ser o seu Paraíso, mas Deus criou os seus Irmãos do Barro do Céu.

Os Irmãos de YAVÉ DEUS disseram aos filhos de Deus que, uma vez criado o Big Bang Original, o Primogénito dos deuses, YAVÉ, O ÚNICO E VERDADEIRO DEUS, destruiu o Cosmos Antigo, reduziu inúmeras galáxias a pó, transformou os espaços infinitos num Abismo coberto por nebulosas de poeira e pedra que cobriam a superfície de um Abismo privado de toda a energia. É sobre este Abismo que o Novo Cosmos se expande até ao Infinito pela Eternidade, absorvendo toda a matéria nebular proveniente da destruição do Antigo Cosmos.

Visão avassaladora para quem, de repente, se sente lançado às profundezas daquele Cemitério sem fundo onde jaz um Cosmos: eis o Inferno, «onde haverá choro e ranger de dentes».

YAVÉ, DEUS, conduziu os seus filhos para além das Fronteiras do Novo Cosmos, de onde a sua Criação se assemelha a um oceano a transbordar pelos seus quatro lados, cujas ondas criadoras se estendem sobre o Abismo como um tsunami todo-poderoso.

Então, Deus dirigiu um feixe de energia luminosa para o campo criador por Ele próprio estendido nas Trevas, e começou a viagem dessa energia até à matéria, cujo produto final foi a Implosão Astrofísica que deu origem ao Sol, aos planetas e aos satélites que o nosso Sistema contém.

Maravilha para os olhos e alegria para a inteligência! Lição de Onisciência Criadora e Revelação ao vivo da Natureza do Criador, para nunca ser esquecida. YAVÉ É DEUS. ELE CRIOU A LUZ E AS TREVAS.

A passo a passo, Deus quis mostrar-lhes a Origem Física da Criação e o lugar de Exílio para onde seriam lançados aqueles que voltassem a incendiar com o fogo da Guerra o seu Mundo.

Feito isto, criado o Sistema Solar, YAVÉ DEUS separou um planeta da sua família, abandonou-o nas Trevas como quem se livra de um corpo sem futuro, e transferiu o Sol e o seu Sistema para os Céus. Aqui, no seio de um meio astrofísico, ainda sem carta de navegação interestelar, Deus abriu ao Sistema Solar o seu próprio campo de movimento dentro de um aglomerado estelar aberto.

A localização do nosso Sistema Solar no seio de um universo do tipo aglomerado globular seria impossível para todos os filhos de Deus, uma vez fora dos Céus.

Foi isto que, de repente, fez YAVÉ DEUS. Deus reabriu a Navegação pela Floresta das Galáxias em direção ao Abismo Exterior, onde abandonou aquele planeta, em princípio um resíduo, como um aborto ocorrido durante a gestação do Sistema Solar.

 

8.

A Luz.

 

Deus criou o nosso mundo, fazendo emergir do seio das águas do oceano estelar os Céus. Depois, criou a Terra. Mas primeiro foi a Ideia.

Na sua Onisciência, o Criador não faz nada sem antes tecer na sua Inteligência o Edifício a construir. Primeiro planeia, decide, traça linhas, calcula, supera problemas, esclarece incógnitas, vê em movimento virtual o fim para o qual tende o seu projeto, deixa-se guiar pela sua Sabedoria e depois passa à ação. Confia na sua experiência para manter todos os processos sob controlo. Se, ao longo do processo, algum elemento parecer escapar-lhe das mãos, age em consequência, improvisa, toma as decisões necessárias e, sem desfigurar a Ideia, mantém o movimento na direção original estabelecida.

Assim, Deus criou a Terra nos confins do Cosmos, longe do Céu e dos Céus, nas Trevas. Deu à Terra o Sol como esposo e os Planetas como irmãos e irmãs.

O Sol, a Terra e a Lua, e toda a família planetária, foram criados a partir de um único núcleo.

Criada a família solar, Deus abandonou a Terra nas Trevas, naquela solidão tão total e absoluta que a fez sentir-se «confusa e vazia», segundo nos conta Deus no seu Livro. Pois aconteceu que, contra todas as expectativas, quando foi à Terra, à qual fez todas as promessas de futuro, o seu casamento com o Sol selado desde a própria Origem, selado com beijos no Berço, Deus levou toda a sua família para longe, muito longe do Abismo coberto pelas Trevas, e abandonou-a a ela, a Terra, à mercê das forças do Abismo. A escuridão gelada de uma solidão invencível penetrou-lhe nos ossos, e de tanto frio os dentes bateram-lhe.

Ai da Terra, nascida entre promessas de maternidade à luz de risos, aplausos e exclamações dos filhos de Deus. Bela na sua nudez, belíssima na sua pequenez. Ai do sonho concebido para ela, como o da criança que vive do sonho da sua mãe enquanto as suas ossos e a sua carne se tecem nas suas entranhas. Ai daquele sonho. O frio congelou-lhe os ossos, os ventos que percorrem as Trevas abalaram a sua carne trémula. Ai do meu sonho, ai da minha vida, que o meu Deus se foi e me abandonou nas Trevas sem ninguém que me defenda! Por que me abandonaste, meu Deus? Por que me prometeste o oceano, por que me fizeste sonhar com o Oriente, o Ocidente, o Norte e o Sul, por que me sonhaste como mãe de tantos filhos, as minhas mãos com asas, os meus cabelos coroados por uma diadema de nuvens repletas de vida, os meus pés de neve a respirar primavera sobre vales verdes, por que me alimentaste com mel se me destinavas como alimento este veneno amargo e espesso? Ai, estou a morrer, ai, prefiro a morte a viver sem o teu sonho.

Assim, quando o seu Grande Espírito regressou para a buscar, «a Terra estava confusa e vazia», porque o seu Criador não aparecia em lado nenhum. Quando regressou, a Luz surgiu. Foi assim.

O Filho de Deus estendeu o campo de forças que rodeia a Terra, e a sua superfície transformou-se num mar de lava viva. Estamos a falar da Fusão da Crosta Primária do nosso planeta. Das entranhas daquele mar de lava viva surgiu a Atmosfera Primordial. Por fim, a crosta terrestre arrefeceu e aquela atmosfera transformou-se num Manto de Gelo que cobriu toda a esfericidade do nosso planeta, do polo norte ao polo sul. Esse Manto de Gelo é «a luz» do Verbo do Primeiro Dia da nossa Criação.

Esta é a origem da escala dos elementos naturais. (Na Introdução à Cosmologia do século XXI, o tema da Física Criadora da Biosfera é abordado com a devida profundidade).

Esta é a História da Terra.

 

9

O Firmamento.

 

O abraço do Todo-Poderoso. Oh, o abraço caloroso do Todo-Poderoso. O calor dos teus músculos, ó Deus, é o calor do primeiro beijo entre os cônjuges virgens, o calor da primeira palavra do pai ao seu bebé; envolve-me no teu sopro, Deus meu... Ai, a Terra, quantos versos, quantas linhas escreveu na sua solidão, cada uma delas uma pomba branca a atravessar as águas em busca do ramo de oliveira que mantivesse viva a esperança de Noé. A sua alegria, o seu coração desenfreado, o seu pulso acelerado, os seus nervos vibrantes no dia em que a luz do Grande Espírito do seu Criador brilhou resplandecente, atravessando o campo das galáxias à velocidade do Seu pensamento! A Sua Voz calorosa, o Seu Verbo ternura, ai, irmãos e irmãs, morro de vontade de banhar os meus ouvidos com o bálsamo do eco das Suas cordas, quando a Sua Palavra rompe o Silêncio.

E assim foi. O Grande Espírito regressou, o Filho de Deus abraçou-a, cobriu-a de beijos, falou-lhe, e a sua confusão desapareceu num instante.

Envolvida naquele Manto de Gelo forjado a temperaturas abaixo de zero absoluto, Manto de Gelo resultante da Fusão da Corteza Primária e da Sublimação da consequente Atmosfera Primordial, Deus separou a Terra das Trevas e introduziu-a nos Céus. Conduziu-a ao encontro do Sol. No calor do encontro, o Gelo derreteu-se e transformou-se em Ar e Água.

Sob o Firmamento que separou as Águas que estão por baixo do Firmamento das águas que estão por cima do Firmamento, dois blocos de Gelo iniciaram a sua retirada em direção aos pólos Norte e Sul. E, desde então, o Firmamento continua lá, separando as Águas dos mares de todos os dias das Águas gravitacionais que preenchem o espaço exterior.

O Firmamento no Verbo do Génesis é a Atmosfera resultante desta forma de criação. Firmamento a que o Filho de Deus chamou «céu», o céu de todos os dias, azul, vermelho, branco, amarelo, laranja, violeta, púrpura. Firmamento sobre cuja arquitetura ainda teremos tempo de abordar, e ao falar do qual abordamos a sua génese, deixando para outra ocasião os fundamentos da Biosfera, fundamentos que nos conduzirão à definição dos elementos constitutivos da Ecosfera.

 

10.

A Mão de Deus.

 

Continuaram sob o Sol, descendo as águas do oceano-mãe. E continuaram a descer até atingirem o nível dos mares. Então, quando as águas se retiraram para deixar que a Vida seguisse o seu curso, a marca da Mão Criadora ficou gravada na rocha das dorsais oceânicas, e sobre a superfície da marca dos seus cinco dedos a árvore das espécies lançou as suas raízes.

Esta é a origem da vida na Terra.

 

11.

O mundo das aves.

 

Os mares encheram-se de criaturas, tantas que não cabiam na imensidão daquelas águas que rodeavam o mundo.

O nível das águas que se encontram sob o firmamento continuou a baixar e, por conseguinte, a pressão a subir. Então, a Árvore da Vida atravessou a fronteira entre a água e o ar, e o firmamento dos céus encheu-se de criaturas com asas e bicos.

Outros ramos tocaram terra firme, passando diretamente da água para a terra; mas o mundo pertencia às aves, que punham os seus ovos na terra e estendiam-se para o interior até aos confins das cordilheiras. Assim, quando os anfíbios começaram a aventurar-se para além das margens e passaram a alimentar-se de ovos de aves pré-históricas, a necessidade de vigiar o território gerou a transformação revolucionária das asas em braços.

Esta é a origem de todos os animais que dão à luz.

 

12.

Os filhos de Deus.

 

Cresceram os pais dos homens e as suas famílias nas florestas, a partir das quais, nas fronteiras com o mundo dos dinossauros, viram os deuses descerem do céu. Os filhos de Deus distinguiam-se das restantes criaturas porque andavam sobre as suas pernas. E o poder que a sua palavra exercia sobre todos os animais era muito grande. Despertou então nos homens um instinto único, o da inteligência, e encontraram na capacidade natural de imitar os deuses o caminho para o domínio do mundo. Foi por essa altura que os filhos de Deus adotaram os homens como discípulos.

 

13

Mesopotâmia. A terra do paraíso terrestre.

Deus concedeu a cada um dos seus filhos, «não da nossa criação», uma zona de influência na Terra. De acordo com o Selo que cada povo tivesse recebido do seu preceptor, a Formação dos Cinco Povos originais, dos quais provém toda a raça humana, daria origem a cinco culturas diferentes. O Projeto Divino consistia em unificar essas cinco culturas numa única, da qual emergiria a conceção de um reino mundial, pátria original de todos os futuros povos do género humano. A coroa desse reino seria concedida por Deus ao Primeiro Homem que O chamasse de Pai, e ninguém poderia atribuir a si próprio esse poder.

Assim, este processo de formação dos povos da Terra, já em curso, com povos provenientes de diferentes locais que se encontraram na Mesopotâmia — hoje chamada Iraque — nos tempos atual, um número indeterminado de famílias. Criaram uma sociedade, ergueram cidades, estabeleceram uma constituição social. Mas nunca se atribuíram o poder de eleger um rei e iniciar, por si próprios, a obra de unificação de todos os povos da Terra num grande reino. Seria Deus a concedê-lo.

 

14

Adão e Eva.

 

E concedeu-o. Movido pelo Deus dos deuses, um jovem cidadão daquela Primeira Mesopotâmia abandonou a sua casa e a sua família. Terminou a sua jornada num recanto virgem daquela terra banhada por quatro rios.

Deus deu um novo nome ao seu escolhido: Adão. E, estando ali, revelou-lhe o Futuro da Humanidade, tal como, na Sua Presciência, o tinha tecido na Sua Mente.

Fora do Éden, a voz do Grande Espírito tinha difundido a mensagem. A escolha divina tinha tido lugar. A entrada do rei na História foi uma visão de curta duração.

Esta é a origem de Abraão, pai de Israel.

 

15

O calcanhar de Aquiles de Adão.

 

A sociedade humana original não se baseava na propriedade, na mentira ou na conquista do poder. Tudo pertencia a Deus, e os seus sacerdotes armazenavam o fruto do trabalho no Templo para que fosse distribuído de acordo com as necessidades das famílias.

A palavra de um homem era lei. O homem, à imagem e semelhança do seu Criador, nunca falava em vão.

Era aqui que residia a força do Homem aos olhos do seu Criador, nessa inocência que o levava a acreditar na palavra do seu próximo como se fosse a sua própria. Até que chegou o filho da perdição e transformou essa força num alvo para a flecha certeira da sua traição.

 

16.

Mais dura seria a vingança.

Ai! Ai da Serpente quando o Pai daquela criança regressasse. O Dragão seria banido dos limites da Criação, onde o não-ser vive uma morte que nunca chega, nem se vai. Os seus planos para obrigar o Grande Espírito a transformar o paraíso num mundo de deuses para além do bem e do mal estavam condenados ao mais absoluto fracasso.

Em Deus, o Pai e o Juiz são um todo indivisível. Justiça e Amor são os dois Braços do seu Grande Espírito. Para o Inferno quem ama o Inferno! Bendito seja Deus e o seu santo espírito de justiça. Ele não suporta a visão de tudo o que temos visto e ouvido, e por isso toda a Criação tem estado expectante, sonhando com o Dia da glória da liberdade dos seus filhos, quando, à frente da sua Casa, o Rei do Paraíso se erguer contra o que o Inferno semeou entre os filhos da Terra.

Dançai, guerreiros, a dança da vitória em honra do Invencível. Batem palmas, ventos do Norte; percorrem os mares com a notícia, ventos do Oeste; levem o grito da esperança àqueles que vivem nas sombras do Oriente: Vem o Rei, rodeado de príncipes que brilham como sóis; o exército do Paraíso de Deus volta a cantar no fim da Noite.

Sim, filhos da Terra, ai dos Rebeldes pela terceira vez, pois encheram o cálice da paciência divina; na sua loucura, quiseram transformar a água em veneno. Jurou então o Grande Espírito que não retiraria a sua espada até que a sua lâmina caísse sobre a cabeça do assassino e dos seus cúmplices amaldiçoados. Jurou pela sua honra e pela sua glória que uma criança nascida daquela Eva herdaria a sua espada, a do Grande Espírito, e com ela se cumpriria a Palavra de Deus: «Ele esmagar-te-á a cabeça».

Não vedes, filhos do Grande Espírito, a visão que o Guerreiro Eterno teve? Que braço surgido do barro poderia erguer com o seu punho a espada do Herói das galáxias que percorrem alegremente o infinito? A resposta está em vós, porque ele esteve entre nós: O Braço de Deus, o Braço do seu Filho.

Ao contemplar a visão do seu Pai, Adão levantou-se do chão e dançou sobre os restos do seu desespero a dança dos heróis em honra do Campeão que o Grande Espírito tinha escolhido para os filhos da Terra.

Esta é a origem de Cristo.

 

17

A leste do Éden.

 

Na amargura do desespero que lhe rasgou a alma e lhe dilacerou a mente, Adão viu a história da humanidade, desde o fratricídio até à última bomba que explodiu na Terra e a reduziu a montanhas de pedra que se desvaneciam no fumo das estrelas. Os horrores que viu assustaram-no de tal forma que lhe foi impossível acreditar que o seu Deus e Pai permitisse tal tragédia.

Aconteceu então que Adão não se enganou.

Deus sentiu a traição de Satanás como uma facada pelas costas, como uma lança em pleno coração. Com a morte do seu eleito, a Terra ficava à mercê de um Dragão obcecado por impor o seu império de um extremo ao outro do mundo, mas, graças à sua Onisciência e Onipotência, a Antiga Serpente acabara de assinar a sua sentença de exílio ad eternum do Céu, da Terra e de todo o Cosmos. Para sua glória, um filho desse mesmo Adão elevar-se-ia até às nuvens, ergueria o braço e deixaria cair o Martelo da Vingança sobre a cabeça do assassino de Adão.

Adão e Eva também foram banidos para longe da sua pátria. Para onde ninguém pudesse encontrá-los e matassem o Menino da Profecia. Foi como se tivessem sido engolidos pela terra. Deus escondeu-os da ira dos seus irmãos entre os povos das montanhas, habitantes de cavernas, os montanheses caçadores de peles do Oriente.

Esta é a árvore genealógica dos filhos de Noé.

 

18.

A primeira guerra civil mesopotâmica.

 

Imediatamente após a Queda, as cidades muito antigas — Ur, Lagash, Kish, Umma... — nomearam reis, e cada rei lançou-se a concretizar a utopia do reino universal recorrendo à força.

Os anjos rebeldes abriram a Caixa de Pandora, deram-lhes o nosso mundo como campo de ação, e o longo alcance dos seus tentáculos estendeu-se a todas as nações. Estendeu-se também a Caim, que matou Abel numa tentativa desesperada de obrigar Deus a conceder-lhe a glória do Vingador.

Consolados pela Sabedoria, Adão e Eva educaram Set na Doutrina Messiânica dos Patriarcas. Ninguém, exceto o próprio Deus, conhecia o momento do Nascimento do Filho do Homem.

Quando aquelas primeiras guerras fratricidas terminaram, os filhos de Sete regressaram à pátria perdida e aprenderam a conviver com as outras famílias em igualdade, sem nunca esquecerem a situação de guerra declarada entre o Céu e o Inferno, nem o papel que lhes tinha sido atribuído nesse confronto.

O Primeiro Homem que chamou Deus de Pai foi Adão; mas de forma alguma Adão seria o último a quem Deus chamaria de Filho perante toda a sua criação.

Esta é a origem mitológica do rei David

 

19.

Rumo ao dilúvio universal.

 

As crónicas conhecidas relativas ao período da Queda das Cidades-Estado e à Era anterior ao Dilúvio são-nos transmitidas de forma enigmática nos arquivos descobertos nos sítios arqueológicos do Médio Oriente. Falam de crónicas reais, da origem divina da realeza. Coincidem com o Génesis hebraico no que diz respeito ao acontecimento do Dilúvio.

Segundo se deduz da história daquele mundo de mitos e heróis, as cidades-estado compraram a paz a um preço muito elevado. A Força pela Lei entregou ao império dos deuses antigos o cetro das Quatro Regiões. Estes, os deuses maléficos e amaldiçoados que semearam a discórdia com as suas mentiras de um extremo ao outro do mundo, sem medo, honra nem vergonha nas suas entranhas, não lhes tendo bastado ter-lhe declarado guerra àquele a quem ainda chamavam Pai, ofenderam-no até ao infinito, pisando uma lei sagrada e inviolável, contra cujo crime insuportável o seu Grande Espírito sofreu em silêncio o indizível. Mas, engolindo o seu orgulho, com o sangue a ferver, o Divino Guerreiro suportou o sofrimento, acumulando na sua alma o fogo no qual arderiam eternamente aqueles demónios perversos e amaldiçoados.

Porque se um pai, por amor a um filho, permite que esse filho mate os seus outros irmãos, esse pai é o demónio maléfico e perverso de cujo seio surgiu tal filho maléfico. Longe da Paternidade Divina tal conduta criminosa!

Em silêncio, com os dentes cerrados, os nervos em tensão, Deus sofreu o indizível no dia em que pisaram a sua lei sagrada sobre a proibição do cruzamento de raças cósmicas. Ao unirem-se Satanás e os seus irmãos amaldiçoados às mulheres humanas, estas deram à luz criaturas meio humanas, meio demónios que, uma vez devastadas as suas entranhas por uma imortalidade que lhes era negada, semearam o mundo de destruição, transformando as terras num campo de devastação onde obter dos seus pais demoníacos, à base de sacrifícios humanos, a imortalidade que lhes era negada.

Eles, os heróis de tempos muito antigos, foram os fundadores das religiões sangrentas que assolaram as terras e compararam os nossos pais a bestas, sacrificando vidas humanas no altar das suas paixões impossíveis, na busca da fonte da juventude eterna. Enlouquecidos pela sua condição, nem divina nem humana, semearam o mundo com aquelas guerras e violências gratuitas que os Antigos registaram nos seus contos e lendas, quando, por amor a uma mulher, um homem era capaz de incendiar uma cidade inteira, como se, no mundo, aquela Helena tivesse sido a última mulher sobre a face da Terra. Selvagens, monstros gerados de sementes amaldiçoadas, os heróis de tempos muito antigos nasceram para morrer, arrastando consigo para a sepultura todos aqueles que os rodeavam, como se manifesta nos túmulos dos Ra e dos Amon do Egito.

Não conseguindo suportar mais a presença daquele mundo onde a bestialidade impôs a sua norma, Deus optou por pôr fim àquela obra, derrubá-la e começar uma nova. Se o Dilúvio afetou todos os continentes da mesma forma e no mesmo momento é assunto para outra história. Se assim foi, cada povo sofreu-o à sua maneira.

 

CAPÍTULO 3

 

20

De Noé a Abraão.

 

As análises de carbono indicam que a data do Dilúvio deve situar-se por volta do início do terceiro e do final do quarto milénio a.C. A reconstrução da história a partir da arqueologia vem reforçar este testemunho.

Muitos se salvaram do desastre e recomeçaram do zero. Durante aquele processo de reconstrução internacional, os filhos de Noé desempenharam o papel do guerreiro que desce das montanhas para o anfiteatro das vaidades babilónicas. A estrutura do mito acádio, uma cópia da estrutura do mito hebraico, não é por casualidade que muitos historiadores tenham acreditado descobrir no Gilgamesh do mito sumério a ligação judaica.

Recordemos que Deus prometeu aos filhos de Noé, olhando para o Filho do Homem, a invencibilidade como regra.

«A tua descendência tomará posse das portas do Inferno», disse-lhes Ele. Promessa maravilhosa e fantástica, na qual o Pai de Adão reafirmou o seu juramento de vingança contra os príncipes do Inferno.

Já estavam os demónios amaldiçoados — que outrora foram anjos abençoados — a celebrar a destruição do mundo, e já se regozijavam com a vitória final sobre o «filho de Eva», de quem já se riam antes mesmo de ver o seu Nascimento, quando aquele Rei silencioso e desconhecido, cujo Grande Espírito não demonstrava qualquer sentimento de fracasso, ergueu a cabeça e, abrindo a boca, para vergonha e confusão daqueles que já celebravam a vitória não alcançada, repetiu o seu juramento abençoado: «O Filho do Homem esmagar-te-á a cabeça; dança enquanto podes, maldito».

Noé e os seus filhos desceram das Montanhas do Leste em formação de exército. (Não esqueçamos que ao guerreiro dos guerreiros, Gilgamesh, é atribuída uma origem montanhosa nos textos cuneiformes). Os filhos de Noé viveram nas cidades, cresceram e multiplicaram-se. O clã original expandiu-se pelas cidades de Nippur, Uruk, Ebla, Kish, Lagash, Umma, Ur

Em Ur, da III.ª dinastia, viviam os pais de Abraão quando a loucura egocêntrica levou o rei de Ur a atribuir a si próprio a imunidade constitucional que se supunha ser dos deuses. Mas vamos reconfigurar, em linhas gerais, a sucessão desses acontecimentos.

De acordo com os elementos arqueológicos à nossa disposição, podemos situar a data do Dilúvio no final do Quarto Milénio e início do Terceiro. O chamado Período Protodinástico situa a sua origem em 2.900. Esta localização obriga a colocar entre a catástrofe e o renascimento das populações um par de séculos de intervalo.

A cidade de Kish foi a primeira a emergir das águas e a eleger um rei. Pouco depois, a cidade de Uruk entrou em cena, contribuindo para a história com as aventuras do seu herói e rei, Gilgamesh.

Após a morte de Gilgamesh, a cidade de Kish voltou a empunhar o Bastão do Império, atuando o seu rei entre as cidades vizinhas como árbitro e juiz das suas disputas. O poder passou para Ur e, posteriormente, para a cidade de Lagash, situando-nos assim no século XXV a.C. Para, finalmente, cair nas mãos da cidade de Umma, cujo rei herói reivindicou para si o império do Éden.

Império que duraria pouco tempo para Umma. Foi-lhe arrancado das mãos pelo jovem Sargão, copero do rei de Kish. Sargão rebelou-se contra o seu rei, fundou a sua própria cidade imperial, Acad, e a partir de Acad partiu para conquistar o mundo.

E conquistou-o.

Os seus filhos reinaram aproximadamente de 2278 a 2193, quando os Primeiros Bárbaros invadiram o império do Éden e espalharam a sua anarquia de um extremo ao outro das Quatro Regiões.

A queda do império de Acad devolveu o protagonismo às cidades clássicas, entre as quais Lagash voltou a assumir o primeiro plano sob a liderança do famoso e lendário Gudea. Mas não foi este Gudea quem libertou o País do império dos Bárbaros, mas sim a coligação das cidades do Sul liderada pelo rei de Uruk, sob cuja bandeira devemos situar os avós de Abraão.

Aconteceu, portanto, que, após a derrota dos bárbaros gutis, o chefe Utukhegal quis proclamar-se imperador, o que ao chefe Nammu e ao seu conselho de príncipes de Ur não agradou nada, e declararam-lhe a lógica guerra de independência. Sob esta bandeira, de facto, podemos situar os pais de Abraão.

Encontramo-nos na fronteira entre os dois milénios, o Terceiro e o Segundo a.C.

Observamos, no entanto, que antes da descoberta das Cidades Perdidas da Suméria, na segunda metade do século XIX, ao falar de Nínive, Ur, Kish, Akkad, Lagash, etc., estas cidades e o seu mundo, que fazem parte do Mundo Profético-Antigo Testamento, essas cidades e o seu mundo, na opinião da Ciência do século XVIII e início do século XIX, nunca existiram, sendo o Génesis de Moisés e os livros dos Profetas, que remontam até Nabucodonosor e para trás, pura invenção literária, um conto de velhas lendas mitológicas que os israelitas inventaram do nada, e que os cristãos resgataram para manter na trevas as nações, das quais a Ciência iria libertar todas, especialmente no auge do século XX, data que os cientistas marcaram como a data da morte do Cristianismo.

Mas, devido a um daqueles acontecimentos que nunca deveriam ter ocorrido, mas que ocorrem, uma geração de cientistas loucos, como se estivessem investidos do poder de Jesus Cristo para ressuscitar os mortos, começou a ressuscitar as Cidades Perdidas da Suméria que, até então, não passavam de contos de velhas.

Os Sayce, Maspero, Rawlingson, etc., derrubaram a dialética do materialismo histórico do século XIX com a Nova Ciência da Interpretação das línguas resgatadas do túmulo: o sumério, o hitita... onde repousavam Nínive, Ur, Kish, Lagash, Acad... as cidades protagonistas da Lista Real suméria.

A relação entre os anos de vida das Genealogias Bíblicas e os anos de vida dos reis desta Lista foi e continua a ser um daqueles fenómenos que nos deixam de boca aberta.

Recordemos:

A coroa desceu do Céu. Eridu foi a cidade real escolhida pelos deuses.

Alulim, (Adão), o primeiro dos reis da Terra, reinou durante 28 800 anos.

Dumuzi, o Pastor, durante 36 000.

Estes três reis somaram um total de 108 000 anos. Quando Bar Tibirá caiu, a coroa passou para Larsa.

Ensipadzidana reinou em Larsa durante 28 800 anos. Logo a seguir, Larsa caiu e Sippar assumiu o lugar

Enmendurana assumiu a coroa e reinou durante 21 000 anos. Sippar caiu, por sua vez, e Churrupag sucedeu-lhe.

Ubar Tutu reinou em Churrupag durante 18 600 anos.

Oito reis para cinco cidades durante um período de 241 200 anos. Imediatamente, o Dilúvio Universal apagou-os do mapa.

 

CAPÍTULO 4

 

21.

Abraão.

 

A estrutura dos factos permite-nos acreditar que Naor, avô de Abrão, foi um dos chefes de Ur que, sob a liderança de Utukhegal de Uruk, libertou o país da anarquia em que os bárbaros o tinham mergulhado.

Mas vamos interromper esta narrativa para destacar o fenómeno do tempo. Fala-se de milhares de anos para uma dinastia e um reinado. É o mesmo fenómeno que observamos nas genealogias bíblicas dos Patriarcas anteriores a Noé.

Fenómeno que nos mostra duas coisas; a primeira, que o método de contar o tempo daquelas gerações do Quarto Milénio e do Quinto Milénio a.C. não é o método que, a partir do Terceiro Milénio, conhecemos e pelo qual nos regemos atualmente.

E a segunda coisa é que: a partir desta ligação, compreende-se que o povo do Primeiro Reino conhecido pelo nosso mundo, cuja coroa recaiu sobre Adão, o Alulim sumério, pai de Noé, e os sumérios eram o mesmo povo, do qual a descendência de Noé se separou até criar a sua própria nação.

Dito isto, voltemos à linha do tempo.

Depois de os Gutis terem sido derrotados pela coligação liderada por Utukhegal, Teraj, pai de Abrão, seguindo esta linha, participou na coligação dos príncipes de Urque sob a liderança de Nammu, que se levantou contra a tirania à qual Utukhegal mais tarde se entregou.

A vitória da coligação de Ur permitiu aos filhos de Nammu conquistar a coroa. Uma coroa que não tardou a sucumbir ao paroxismo da perversidade quando o seu sucessor, Shulgi, se autoproclamou deus na terra.

Digamos que se regressou subitamente aos dias anteriores ao Dilúvio, quando os heróis de tempos muito antigos proclamavam ser filhos autênticos e genuínos dos deuses e reivindicavam para si todos os direitos da divindade. Não foram as suas religiões e os seus feitos que conduziram as nações à ruína?

Sob o reinado dos filhos de Nammu, com Shulgi e os seus irmãos a reinar em Ur, o nosso Abraão abandonou a sua cidade natal. Incapaz de suportar por mais tempo aquela egolatria, Abraão abandonou Ur. Curiosamente, sem encontrar resistência.

Os factos deixam pouco espaço para dúvidas.

Pela força que posteriormente demonstrou o exército de soldados pastores sob o comando de Abraão, tudo indica que o filho de Teraj esteve no olho do furacão da guerra civil que a divinização de Shulgi desencadeou. Se o seu Deus não tivesse intercedido, o filho de Teraj teria certamente liderado o golpe de Estado contra o filho de Nammu. A situação em Ur teria sido então bem diferente. O exército do filho de Teraj teria decidido o destino da cidade.

Quando , portanto, Abraão abandonou Ur, o filho de Nammu viu partir o seu inimigo mais perigoso. O exílio voluntário do filho de Teraj reduziu a oposição à sua dinastia ao mínimo possível.

E foi assim que, à frente de um poderoso exército de guerreiros-pastores, Abraão subiu pelas margens do rio Ocidental, sem que ninguém se atrevesse a enfrentá-lo. Entrou na Síria pelo norte, uma terra de ninguém aberta ao pastoreio e ao banditismo.

Diz a Bíblia que Abraão lutou até contra cinco reis ao mesmo tempo. E triunfou sempre. E continuou a triunfar. Nem mesmo o Faraó se atreveu a levar a cabo a sua ousadia. O que foi que restou do seu anunciado casamento com a mulher do Filho de Noé? Um exército de homens endurecidos no campo de batalha, que se move ao som da palavra de um único homem — desde quando é que se diz que um inimigo é fácil!

Quanto à data aproximada da peregrinação de Abraão e do seu filho Isaac pelas terras do Médio Oriente, as fomes de que fala a Bíblia e as fomes que assolaram o reinado dos filhos de Nammu, especialmente durante o reinado de Ibbi Sin, entre 2028 e 2004, servem-nos de ponto de referência na linha do tempo.

A presença de Abraão e do seu filho entre os amorreus, povo inimigo de Ur, com os quais as relações de Abraão se regiam pelo princípio de «o inimigo do meu inimigo é meu amigo», abre-nos os olhos para a situação geopolítica em que se movia o pai de Isaac. Além de nos confirmar os limites cronológicos entre os quais situámos Abraão e o seu filho.

 

22.

Israel.

 

Incompreensível uma decisão que poderia ter manchado a sua reputação com a fama dos covardes, Abraão preferiu a sabedoria do seu Deus à dos homens. A sua posição teológica não admitia mutilações nem revisões. A hora do filho de Eva ainda não tinha chegado. Esta era a sua verdade. O resto — acreditar que a história do Paraíso Perdido era apenas isso, uma lenda antiga — foi, para Abraão, uma tentação de Satanás.

De facto, a impaciência foi a mãe do pecado de Caim. A ignorância, e não a sabedoria, foi o motor do seu crime. Aquele que jurou vingança reservou-se o direito de marcar a data do combate até à morte entre o Filho do Homem e Satanás. Cabe a Deus dizer o quando e o como. Ele diz e toda a criação escreve: «E assim foi feito.» Na sua palavra está a vida.

«Conta as estrelas do céu, se puderes; assim de numerosa farei a tua descendência».

Onde estão os descendentes da Casa de Nammu?

Após a morte de Isaac, ainda em vida de Jacob, pai de José, a fome voltou a assolar as terras do Antigo Oriente Próximo. Durante aquelas fomes que assolaram o universo conhecido, foi-nos descoberto nos papiros o estabelecimento de um poderoso clã hebreu junto ao Nilo.

A «Conexão Judaica» apresenta José nos movimentos sociais que as fomes provocaram na corte do Faraó.

Com José, a Providência entrou no Egito. Entende-se que, em sinal de gratidão, o Faraó e a sua corte permitiram que os irmãos da Providência se instalassem na margem do Nilo que mais lhes agradasse.

Com a Providência em casa, adeus aos tempos difíceis.

 

23

Moisés.

 

Localizámos o período abraâmico durante a III Dinastia de Ur, entre os dois extremos do século XX. E vimos como, nos registos faraónicos do Império Médio, durante o reinado de Amenemhat II, entre 1929 e 1895, as tribos asiáticas começaram a penetrar no Egito, avançando cada vez mais para sul.

Foi nas crónicas de Sesóstris II, sucessor do anterior, que já se encontra um registo firme desta imigração de tribos asiáticas para o império. Mas o ponto de interesse que nos chama a atenção são as fomes que assolaram o Egito durante o reinado de Mentuhotep III. Fomes que nos ligam à História de José, permitindo-nos situar a chegada dos hebreus ao País do Nilo no início do Segundo Milénio.

A importância desta ligação reside na resposta que exige o acontecimento do estabelecimento de tribos de criadores de gado no reino dos faraós, que eram agricultores. O facto da ruptura com a cultura faraónica tradicional, da rejeição em relação aos povos nómadas e criadores de gado, abre-nos os olhos para uma mudança que só se explica pela revolução que representou a presença de José na corte do Faraó. Sem ir mais longe, será durante este período que o Faraó adquirirá todas as características clássicas, tão típicas das estruturas imperialistas asiáticas, e se produz a unificação dos dois Egitos.

É compreensível, portanto, que até à chegada daquele faraó que não conheceu José, os hebreus tenham beneficiado de uma política de amizade privilegiada, graças à qual, à medida que cresciam, expandiram os seus assentamentos mais para sul, ao preço, claro que sim, de abandonarem a tradição pecuária dos seus antepassados.

Como rápido, então, se esquecem os maus tempos! Ao virar a esquina, os filhos dos salvadores tornaram-se os pais dos escravos que fizeram grande o Império do Faraó e, com o passar do tempo e outras voltas de esquina, acabaram por significar a ruína dos egípcios. Mas vamos por partes.

A política de amizade para com as tribos do Médio Oriente que os faraós das XII.ª e XIII.ª dinastias seguiram atraiu outro povo para o seu império. Estamos a falar dos hicsos. E será no golpe de Estado que estes hicsos deram que devemos procurar o faraó que não conheceu José e que puniu os hebreus pela sua recusa em apoiar a tomada do poder… com a escravatura!

A decadência que a corte faraónica sofreu durante a XIV dinastia abriu as portas do poder ao povo que se encontrava entre eles, os hicsos, poder que os egípcios só recuperariam depois de o exército hicsa ter perecido, afogado nas águas do Mar Vermelho.

Desta forma, se considerarmos a linha do tempo e situarmos a entrada dos hebreus em algum ponto do século XX, a sua saída, quatro séculos mais tarde, situar-se-á por volta de meados do século XVI, data, precisamente, em que ocorreu a queda dos hicsos e a reconquista do trono perdido pelos Ramsés.

 

24.

Josué.

 

A inocência, digamos-o sem rodeios, não foi o calcanhar de Aquiles de Josué. Como na Idade do Bronze eram os metais que falavam, e sendo ele um perfeito conhecedor da linguagem das armas, Josué conduziu a conquista da Terra Prometida de vitória em vitória.

«Nesse período, nos séculos XV e XVI a.C., uma maré de povos em movimento revolucionou o status quo do Oriente Próximo pré-cristão», nas suas palavras, com a sua forma de negar sem deixar de afirmar, de afirmar negando, diz-nos a História Oficial.

O que aconteceu foi que Josué e os seus hebreus arrasaram tudo. A conquista da Palestina bíblica por uma onda de guerreiros-escravos deveu-se à necessidade de semear o terror que antecedeu a debandada.

A notícia da libertação dos hebreus tinha de espalhar — e espalhou — o terror a oeste do Jordão.

Comparemos esta Rebelião dos Escravos Hebreus do Egito com a Rebelião de Espartaco contra o Império Romano e compreenderemos a natureza da onda de pânico que se espalhou pela Itália, amplificada, neste caso, pela Queda do Faraó Hicsa.

A partir da nossa posição confortável, três mil e quinhentos anos depois, resumimos a notícia dizendo que os escravos egípcios se tinham rebelado contra o Faraó, tinham-se vingado da morte das suas crianças e tinham derrotado, nas margens do Mar Vermelho, os exércitos do senhor do Nilo. Tinham passado para este lado do Sinai e vinham conquistar as terras do Jordão, liderados por um chefe militar que não conhecia a misericórdia. A sua mensagem para todas as cidades- estado a oeste do Jordão era inequívoca: fugir ou ser destruído.

Isto do nosso ponto de vista. Mas, na mentalidade daqueles povos da Palestina bíblica, as notícias eram outras.

Como se fossem descendentes da desaparecida Atlântida, um povo tinha surgido das profundezas do mar. Aqueles filhos do oceano acabaram com o império dos faraós hicsos e agora dirigiam a sua conquista para o Leste com um único propósito: destruir pelo simples prazer de destruir. Afinal, quem é aquele que derrota um exército imperial e, em vez de se apoderar do seu reino, dá meia-volta? Tinham atravessado o Sinai para arrasar, destruir e devastar. Esta notícia gerou terror na Palestina Antiga.

Então, a maré conquistadora hebraica transformou-se no impacto da rocha sobre as águas, e das suas profundezas emergiram os filisteus. No entanto, a entrada dos filisteus em cena só se daria no final da lenda, quando, finalmente, os povos asiáticos descobriram que os hebreus não eram monstros, filhos da Atlântida, mas homens como todos os outros.

Recapitulemos como estava o mundo cinco séculos depois de Abraão.

O colapso da Dinastia de Nammu, a Terceira de Ur, deixou o Bastão do Império à mercia do aventureiro mais ousado. Na cidade de Larsa, o seu rei Gungunum colocou-se à frente dos Estados mesopotâmicos, dominando a cena no último terço do século XIX.

 

A sua morte deu asas aos reis de Isin, que viram fracassar a sua tentativa de recuperar a hegemonia perdida e tiveram de sofrer a divinização dos filhos de Gungunum. Uma teocracia sui generis, tão típica das eras mesopotâmicas, que acabaria por colocar a Babilónia de Hamurabi no primeiro plano.

Durante algum tempo, ainda no século XVIII, a Assíria de Shamsi Adad, a Larsa de Rim Sin e a Babilónia de Hamurabi travaram guerras entre si e com o resto do mundo pelo Império. Ao atingir a metade do século, Hamurabi impôs a sua lei e, novamente, o País do Éden ficou nas mãos de um único homem. Um domínio imperial de curta duração, uma vez que, em 1595, a dinastia de Hamurabi chegou ao fim e o país regressou à anarquia que lhe era tão característica.

A ascensão de um novo povo ao poder, os casitas, serve-nos para alargar o horizonte e perceber, no cenário geopolítico, a existência de um reino forte, o hitita, que, juntamente com o mitânico e o egípcio, se repartirá os papéis que, até então, tinham sido desempenhados pelas cidades-estado.

O pormenor que nos chama a atenção e nos faz perceber a importância da Conquista da Terra Prometida é comprovado pelo facto de nenhum destes três reinos ter conseguido ultrapassar as fronteiras traçadas por Josué. De facto, os famosos«Hapirus», ou hebreus, ganharam fama de adversários temíveis nas fronteiras do reino mitânico. Situação que viria a mudar com a avalanche filisteia, que não só derrubou as muralhas do reino hitita e abateu os limites do desaparecido reino de Mitani, como foram os primeiros exércitos conhecidos a enfrentar os hebreus com esperança de vitória.

Os exércitos do famoso rei assírio Tiglate-Pileser I, mesmo tendo chegado às costas fenícias, também não se atreveram, ou não conseguiram ultrapassar as Fronteiras de Josué. Seria no século XI que, uma vez destruídos os reinos clássicos desta segunda metade do segundo milénio, essas fronteiras fossem pisoteadas e o próprio povo hebreu fosse levado à beira da destruição pelos mesmos destruidores dos hititas. A intenção natural dos filisteus de se apoderarem do terceiro reino da época, o egípcio, tinha de passar pelo cadáver dos hebreus. Algo difícil de concretizar enquanto o Deus de Moisés estivesse com eles.

Se, no seu tempo, os hebreus libertaram os egípcios dos hicsos, agora iriam salvá-los dos filisteus.

 

CONCORDÂNCIA ENTRE OS ACONTECIMENTOS DO ORIENTE PRÓXIMO DURANTE A SEGUNDA PARTE DO SEGUNDO MILÉNIO A.C., A FAVOR DO ÊXODO NO SÉCULO XVI A.C.

 

1750. Os hicsos conquistam Avaris

1595. Fim da primeira dinastia da Babilónia.

Murshilish I, neto de Khattushilish I, destrói Aleppo e a Babilónia.

1573-1550 Os egípcios expulsam os hicsos

Êxodo e Queda de Jericó

 

A cronologia definitiva da época do Médio Oriente em relação à História da Bíblia permite-nos traçar os acontecimentos a partir de uma nova perspetiva. A desmembramento da cronologia do corpo da arqueologia, com o objetivo de separar a História Universal da História Divina, causou, no final do século XIX d.C., um deslocamento dos factos que levou a situar o Êxodo no século XIII a.C.

A impossibilidade de harmonizar os acontecimentos relatados na Bíblia com o nosso conhecimento da civilização e da cultura faraónica egípcia impede-nos de atribuir um caráter de transcendência histórica a uma cronologia oficial cuja origem é antibíblica.

O primeiro fator que invalida tal deslocamento do nascimento de Moisés para o século XIII a.C. tem na endogamia monolítica da Casa Faraónica a sua chave mestra. Acreditar que uma dinastia imperial fundada na endogamia fechada da família faraónica pudesse admitir no seu seio o filho de uma escrava, como foi o caso de Moisés, é negar todo o conhecimento acumulado sobre a mentalidade da dinastia faraónica.

Na verdade, é preciso estar profundamente enraizado no anticristianismo mais feroz para, contra a própria inteligência, fechar os olhos e ignorar tal barbárie.

Seria inútil tentar reconstruir a mentalidade endogâmica faraónica que vimos na sua forma mais brutal na história de Cleópatra VII.

O racismo é algo novo. Os povos antigos não compreendiam o racismo tal como nós o compreendemos. Mas acreditar que um hebreu, filho de escravos, pudesse ser adotado, em pleno século XIII a.C., pela Casa Faraónica como príncipe é, na verdade, exigir que nos cortemos a cabeça ou que nos desprendamos do cérebro.

Sob a natureza endogâmica faraónica que permaneceria em vigor durante a era ptolemaica até dar o seu último suspiro em Cleópatra VII, abrir ao Moisés do Êxodo as portas da Corte do Faraó do século dos Ramsésidas é voltar à exigência de nos deixarmos arrancar o cérebro. Ou bem nega-se qualquer realidade à história deste herói bíblico, ou nega-se a cronologia oficial do Êxodo, que situa a travessia do Mar Vermelho algures no século XIII.

Perante a mentalidade endogâmica faraónica, não há outra escolha possível.

Um facto semelhante, a adoção de um escravo por uma princesa faraónica, só poderia ter lugar na corte dos reis hicsos. Provenientes ambos, o israelita hebreu e o povo dos hicsos, do mesmo tronco, dois ramos do mesmo fenótipo asiático-mesopotâmico, a adoção por uma princesa hicsa do filho de uma escrava israelita equivalia a uma espanhola adotar uma criança francesa ou italiana.

Por outro lado, a endogamia da dinastia hicsa resumia-se ao caráter militar típico de todo o ato de invasão e conquista. Essa reação do poder hicsa ao crescimento da população israelita nunca foi registada, em nenhuma época, como própria da corte egípcia nativa; e não existem registos de tal medida, em geral, e em especial contra os israelitas, pela simples razão de que tal barbárie não cabia ao egípcio. Apenas uma corte não nativa, a dos hicsos, que se sentia invasora e sempre atenta ao facto de que o golpe de Estado que deram contra os seus anfitriões, os egípcios, lhes pudesse voltar como um bumerangue pelas mãos dos israelitas, poderia dar a sua bênção a tal medida genocida.

Isto, por um lado.

Por outro lado, voltemos ao golpe de Estado que os hicsos deram contra os seus anfitriões, os egípcios, em 1750 a.C.

Desde este ano, 1750, até ao ano da sua queda, por volta de 1550, mais ou menos uma década para cima ou para baixo, os hicsos tiveram dois séculos de domínio absoluto, durante os quais os egípcios retiraram-se para o sul e, a partir de lá, aguardaram o seu momento. Que acontecimento lhes permitiu, de repente e sem aviso, lançarem-se contra um invasor que, durante dois séculos, tinha imposto a sua lei no Nilo? As forças militares egípcias durante o período anterior à queda dos hicsos revelam-se inexistentes.

Também há Jericó, a cidade fortificada que não conseguiu resistir ao cerco das trombetas de Josué. Os arqueólogos reconhecem que foi nessa data que as suas muralhas ruíram... mas que isso aconteceu devido a um terramoto.

Não sabemos em que dados se baseiam para afirmar que a região sofreu um terramoto. A menos que o terramoto tivesse o seu epicentro exclusivamente sob os pés de Jericó, é de acreditar que o preconceito antibíblico cegou o pensamento dos Pais da Arqueologia do Antigo Oriente Próximo e, mesmo tendo a concordância das datas, presos ao antibiblicismo, recusaram-se a relacionar os acontecimentos entre si.

Primeiro:

por volta de 1750, aproximadamente, entra no Egito o povo que não conheceu José, os Hicsos.

Durante mais dois séculos, até cerca de 1550 — o que perfaz quatro séculos desde José até Moisés —, os hicsos dominam de forma todo-poderosa o Império dos Faraós.

Neste mesmo século, o XVI a.C., os hititas rearmam-se e lançam-se à conquista da Síria e da Babilónia.

Politicamente falando, o Faraó hicsa teve de enfrentar este problema da expansão do império hitita. De facto, uma vez derrubado o poder hicsa, o Faraó egípcio estabeleceu relações com a nova potência do Norte.

Quero dizer que os israelitas eram um povo escravo que poderia ter sido utilizado como cavalo de Tróia pelos hititas. Um povo de escravos que anseia pela liberdade é sempre um perigo interno propenso à revolução, caso conte com apoio externo. O Faraó hicso não podia lançar-se à guerra contra o rei hitita, deixando para trás este exército de escravos. O decreto de assassinato de todos os meninos hebreus vinha para enfiar o dedo na ferida sangrenta do fardo da escravidão e, ao mesmo tempo, marcava qualquer insurreição com o ferro do extermínio. De facto, os hititas não cruzaram a linha vermelha da influência hicsa sobre as cidades-estado da Palestina bíblica.

Os egípcios estavam à espera. A ascensão do poder hitita poderia ser utilizada pelos egípcios contra o poder hicsa. Preso entre o Norte e o Sul, no meio ficava um exército de escravos à espera de um Libertador enviado pelo seu Deus para os conduzir à terra dos seus antepassados.

O infanticídio em massa seria uma boa medida política com o objetivo de manter à distância este exército de escravos forjados pelo trabalho desde o berço até ao túmulo. É de crer, tomando como indicador a paralisação dos hititas e o silêncio dos egípcios, que os hicsos conseguiram conter a ameaça e criar um novo equilíbrio de poder internacional.

Foi precisamente nessa altura, quando os hicsos se encontravam firmados no seu trono, que, sem qualquer motivo aparente, surgiu do nada aquele menino salvo das águas, numa má altura, diriam os hicsos, para lhes retribuir com a mesma moeda que os hicsos tinham usado contra os hebreus: a morte de todos os primogénitos hicsos.

Deus fez o que é natural para Deus quando Deus quer mostrar-se como Deus, afundou até ao abismo o trono dos hicsos e devolveu a corte ao egípcio.

Agora começa o problema. Será que Jericó caiu devido a um terramoto isolado no espaço, cujas ondas não se fizeram sentir senão exclusivamente nas muralhas de Jericó?

A Concordância Cronológica não poderia ser mais firme.

Nos séculos XX e XIX a.C., aproximadamente, José é vice-rei do Faraó.

Dois séculos mais tarde, no século XVIII, os hicsos conquistam o trono dos faraós.

Dois séculos depois, no século XVI, Moisés liberta os hebreus e passa o comando a Josué.

Enquanto este dá início à conquista da Palestina, o egípcio regressa à sua casa. Uma dádiva do Céu, uma graça do Deus de Moisés.

Jericó desmorona-se por volta de 1550. O terror apodera-se de todos os reinos da Palestina. Inicia-se uma reestruturação do Mundo Antigo rumo à Vinda do Redentor, cujos principais protagonistas serão David, Salomão, Nabucodonosor e Ciro, o Grande, Alexandre, o Grande, e Otávio Augusto.

Voltaremos a esta Concordância noutra ocasião

Mas, nisto como em tantas outras coisas, trata-se de ir contando gotas do oceano. Sem ir mais longe, vemos como as zonas de influência entre os hicsos e os hititas, estabelecidas na sequência da conquista de Alepo e da Babilónia pelos hititas, são respeitadas pelos hebreus. Josué alarga a expansão das tribos dentro desse quadro geopolítico. Ao estabelecer o Jordão como fronteira nacional, Josué evita um confronto direto com um reino hitita no auge do seu império. Não se pode esquecer que, na arte da guerra em campos de batalha, o povo hebreu, que acabara de sair de quatro séculos de isolamento, era um guerreiro inexperiente. Um confronto direto com o reino hitita era a última coisa que Josué podia permitir-se.

Quero dizer que a estrutura geopolítica da região e a conquista da Palestina pelos hebreus coincidem no tempo com uma precisão que não deixa margem para dúvidas na hora de situar este Acontecimento, de caráter e valor universal, no século XVI a.C. Primeiro, Moisés provoca a Queda da Dinastia Hicsa no Egito, e, como consequência, a Restauração da Dinastia Faraónica Nativa; depois Josué torna-se o epicentro causador do terramoto que derrubou as muralhas de Jericó e espalhou o terror entre as cidades-estado deste lado do Jordão.

Observamos ainda que os hititas respeitaram o quadro geopolítico estabelecido após a sua conquista de Alepo e da Babilónia, uma conquista que preparou aos hebreus a sua entrada na Terra Prometida, e vemos nisso a ação Divina preparatória do Êxodo. É absurdo acreditar, conhecendo a sede de império da Babilónia daquela época, que, se os hititas não tivessem posto fim ao seu reino, a Babilónia tivesse ficado de braços cruzados perante as consequências do Êxodo.

Se, pelo contrário, se quiser fazer-nos acreditar numa questão de coincidências, a nossa resposta não pode ser outra senão aquela que convém a quem se arrancou os olhos da inteligência e só vê nas trevas aquilo que imagina ver. O facto é que entre a imaginação subjetiva e a realidade objetiva existe uma muralha, de um lado da qual está a ignorância e do outro lado a loucura. Neste século, as ciências históricas, tal como o conjunto dos ramos da Árvore das ciências, terão de escolher de que lado se situam; dependendo dessa decisão, serão tomadas as medidas correspondentes e necessárias para situar essa Árvore no Jardim que, por natureza, lhe pertence: o Jardim da Verdade.

 

25

Juízes.

 

Com o estabelecimento na Terra Prometida, surgiram nas tribos hebraicas os males do sedentarismo antigo. «Repete-me isso outra vez, avô». As escrituras sagradas, sempre as escrituras sagradas!

«Pergunta aos anciãos e eles dir-te-ão.» «Ouve, Israel...»

Com o passar do tempo, os ouvidos cansaram-se de ouvir a mesma história contada mil vezes.

Sim, já chega. Adão e a maçã proibida, Noé e o Dilúvio, Abraão e Isaac, José e os seus irmãos...

As futuras gerações hebraicas adaptaram-se ao que havia, aos seus vizinhos, ao progresso. Sempre que o faziam, as coisas corriam de mal a pior. A exceção de Moisés. Mas não aprendiam.

Assim, quando aquela fé que movia montanhas chegou ao ringue de Golias, a verdade seja dita, já não movia nada, nem sequer umas pernas paralisadas pelo medo, cravadas no chão, a viver as suas últimas horas de vida, de liberdade, na melhor das hipóteses.

A forma como os filisteus tratavam os vencidos fazia os cabelos de todos se arrepiarem . E ainda por cima aquele Golias a fazer-se bonito. Morte ou escravidão, ou será que já não se lembravam de quando os expulsaram a todos da sua terra ao grito de «Fuga ou Morte»?

Foi aí que o faraó se enganou. «Com o cão morto, acabou-se a raiva», zombou Golias na cara deles.

 

CAPÍTULO 5

 

26.

Davi.

 

Será que Josué iria ser interpelado por um homem da mesma forma que Golias interpelou Saul? Os habitantes de Jericó esconderam-se atrás de muros altos e grossos como a Muralha da China. De que lhes serviu isso? Quanto tempo diziam que conseguiriam resistir? Até que crescesse barba aos que ainda estavam a ser amamentados? Hahaha.

Não foi Deus quem fez um milagre quando os tirou do Egito? Porque é que não iria fazer agora outro?

«Salvar-te a vida, por exemplo», grasnou Golias quando descobriu a estatura daquele que tinha dito aquelas asneiras, próprias de uma criança.

Tinham escolhido como candidato ao título um miúdo magricela, um novato que saltitava entre o gigante e a primeira linha inimiga. Não era de rir? Jo jo jo.

«Cala-te, cão pagão. Não sabes nada. És tão tolo quanto és imenso. Deus vai realizar uma obra tão grandiosa quanto aquela. Quem a ouvir não vai acreditar. Dirão uns aos outros: Já ouviste a última piada hebraica?: Vai um pastorzinho de três ou quatro anos com o seu rebanho pela montanha e depara-se com um gigante armado como um Hércules ressuscitado, com pelo menos três metros. Com muita fome, o gigante vai lá e mete a mão numa ovelha gordinha. O pastorzinho apanha-o em flagrante. O que achas que o pastorzinho disse ao gigante?

Isto é que é incrível. Tu também não vais acreditar.

O pastorinho era um leão encantado por um feiticeiro. Não falava, rugia. Não rugia como um cachorrinho, rugia como o próprio rei da selva.

O pastorinho encantado continuou a dar voltas e mais voltas à volta do gigante de ferro ao ritmo dos tambores de guerra. Por cima da sua cabeça, uma funda com a sua pedra girou a uma velocidade vertiginosa. Os inimigos ofegaram perante o seu cão de luta e recuaram quando o feiticeiro correu em direção à linha da frente filisteia, cravando-lhes no cérebro aquele rugido enfeitiçado que lhes dilacerava os sentidos.

Desesperado, farto de ver aquele palhaço a dançar como uma marioneta estúpida, Golias comete o erro imperdoável de arrancar o capacete e esmagá-lo contra o chão.

Ele ia falar, queria dizer alguma coisa, abriu a boca para dizer algo. Mas não teve tempo para mais nada. O anão lançou o míssil. Bingo. Alvo perfeito. Entre os olhos. Um golpe relâmpago. O gigante caiu de costas como um saco de batatas.

«É isto que o filho de Adão fará com o Diabo. Observem, guerreiros. Ele erguerá a espada e cortará-lhe a cabeça de um só golpe», gritou David triunfante.

Um pastorinho insignificante enfrentou aquele fanfarrão e cortou-lhe a cabeça de um só golpe. Não é engraçado?

 

27.

A Corte do Rei Profeta.

 

Saúl reinou de 1025 a 1010. David, de 1010 a 955.

A coroação de Saul abre-nos os olhos para a anarquia em que os filisteus mergulharam o mundo . Hititas, mitanianos, assírios, babilónios, sombras do que foram outrora; o futuro da civilização ficou nas mãos dos hebreus. Que também não teriam conseguido resistir ao seu colapso se não tivesse intervindo o Deus de David, o verdadeiro artífice da vitória hebraica frente aos exércitos que o Inferno tinha mobilizado na sua guerra particular contra o Céu. Mas não nos detenhamos naquilo que é História Divina.

Durante o decorrer do seu reinado, David soube o que aconteceu no Éden. Deus também-lhe revelou o Seu Plano de Salvação Universal.

Ao ver, em espírito, o fim da batalha entre o Filho de Deus e o Diabo, o rei David saltou de alegria. No entanto, ele não era homem de se confessar todos os dias e, entre o facto de ser um segredo absoluto e de o seu Deus o ter colocado entre uns que queriam matá-lo e outros que o procuravam para lhe tirar a vida, David guardou em silêncio tudo o que tinha conhecido e publicou o que o seu Deus lhe inspirou para ser lido.

A ideia do rei Messias rapidamente se enraizou no espírito guerreiro dos jovens. E não parou de crescer até encontrar em Absalão o seu príncipe valente.

Absalão não podia nem iria permitir que o partido de Salomão se aproveitasse da velhice do rei para conceder os direitos de primogenitura à marioneta que tinham criado. Assim, tornou-se prioridade máxima matar Salomão.

 

28.

Salomão.

 

«O primeiro pensamento nem sempre é o último; pelo contrário, quase sempre costuma ser o primeiro elo de uma cadeia de acontecimentos.

A sabedoria nunca exige a velhice como condição sine qua non para se deixar alcançar.

 

A última palavra não cabe ao mais velho, mas sim ao mais sábio. Mas até os sábios desconfiam da omnipotência da sua razão.

O sábio tem em Deus o seu pensamento e na Sua vontade encontra a sua força.

O pensamento do homem é névoa nas trevas; o espírito da Sabedoria é aquele que anima a inteligência e a eleva até à resposta daquele que conhece todas as coisas, porque Deus lhas revelou.

Deus diz e Deus faz; é aqui que o homem encontra o princípio da sua inteligência».

Salomão foi criado sob uma chuva de palavras deste género. Na corte do seu pai, Deus tinha difundido o Seu espírito. O profeta Natã, por exemplo, entrava e saía do palácio do rei mais vigiado do mundo como se fosse a sua própria casa. A verdade é que, se Natã se tivesse calado, ninguém teria descoberto o crime tão grave que David cometeu ao matar o marido para ficar com a viúva.

Natan apresentava-se no palácio como se fosse o próprio Moisés a entrar na sala do trono do Egito. Não havia no mundo homem capaz de atravessar sem autorização as sete muralhas de guerreiros invencíveis que protegiam o rei de Jerusalém. Entrar no próprio salão do Trono de Israel como persona non grata? De que, como e quando?

Dominado pela vertigem que lhe provocou a descoberta do crime, Natã irrompeu na casa do rei como um filho entra na casa do seu pai. O homem que tinha às suas ordens as mulheres mais belas do universo tinha-se deixado levar pela paixão mais juvenil e levara-a até às suas últimas consequências.

O facto de matar um homem para o roubar é crime suficiente para pagar vida por vida; roubar a mulher do teu próximo ao preço do sangue do teu irmão, o que será isso? — perguntou Natã ao rei dos profetas.

O rei tinha pecado ainda mais, pois, tendo sido ungido por Deus, tornava mais difícil a Deus vingar o sangue derramado. Teria Davi colocado Deus no dilema de Satanás? Condenaria Deus todo o povo pelo pecado de um único homem?

Que homem da corte do rei David se teria atrevido a erguer-se como profeta perante o rei profeta, se não fosse o seu próprio filho? Que profeta teria David aceitado para lhe dirigir a palavra, senão um filho nascido das suas vísceras?

O seu Deus, que tanto o amava e tanto o conhecia, tirou-lhe da coxa um filho nascido para lhe amordaçar a língua.

 

29.

O Nascimento do judaísmo.

 

«É Ele quem dá as ordens, meu filho», dizia Salomão ao seu filho Roboão. Os seus exércitos movem-se ao som da voz do seu Verbo. Nenhum líder do seu povo deve assumir as competências do Senhor dos Exércitos; Ele nunca está ausente. Ele não deixa os seus exércitos sozinhos à mercê da derrota. Ele sabe quando e como. O Rei zela pela paz e pelo bem do seu povo; o povo do Senhor Deus é a sua criação na íntegra. Na sua onisciência, Ele dirige o curso da história das nações. A vitória é Sua; Ele escolhe os líderes do seu povo desde o ventre das suas mães. Sê sábio, meu filho.»

O que o vento levou!

À costas do seu pai, Roboão converteu-se ao judaísmo.

A tribo de Judá tinha-se conspirado para inaugurar a era messiânica no dia seguinte à morte de Salomão; após a morte de Salomão, as restantes tribos aceitariam o facto consumado e unir-se-iam ao projeto.

“Meu filho, não te deixes lisonjear por aqueles que se sentam à mesa do rei, pois são os seus interesses que falam pelas suas bocas, e não a sabedoria de Deus.

De que vale um anel de ouro no focinho de um porco?; não será a ganância a ruína do avaro?»

Que pai seria aquele se tivesse tido um bom filho!

Por trás dos limites salomónicos, o crocodilo do Nilo estava à espreita. Do outro lado dos grandes rios, o urso assírio começava a sair do seu letargo.

«Não sejas louco, meu filho...»

Palavras de sábio aos ouvidos de um burro!

Com a morte do Rei Sábio, o crocodilo do Nilo invadiu Jerusalém, arrancou as pedras de prata das suas ruas, desmontou as telhas de ouro dos seus palácios, o marfim das suas cúpulas, e deixou para trás o filho do Rei Sábio a chorar como uma mulher pelo que não soube defender como um homem. Isto aconteceu por volta do ano 930 aproximadamente.

Mas lembremos:

A verdadeira ruptura determinante de uma alienação do judeu face ao hebreu teve a sua origem imediatamente após a morte do rei Salomão. Se considerarmos os hebreus como um único ser, na medida em que são fruto da descendência de Abraão, então temos de dizer que a ruptura entre judeus e galileus-hebreus deu início a um processo de esquizofrenia violenta e incurável, cujo desenvolvimento patológico não podia ser outro senão a destruição do corpo nacional. De facto, em 722, Sargão II destrói o reino de Israel, ou seja, a Galileia e a Samaria, e em 607 Nabucodonosor faz o mesmo com o reino de Judá.

Nem mesmo Deus, podemos afirmar, pode fazer nada quando a loucura é abandonada às suas próprias forças. No entanto, mais do que satirizar processos que são matéria de livros, o que aqui nos interessa é saber por que razão os hebreus de David e Salomão romperam o Pacto de Unidade entre as tribos de Israel, provocando o início do fim dos hebreus como nação e povo, que nunca mais voltariam à cena, sendo o seu lugar ocupado, doravante, pelos judeus.

A partir da leitura dos livros históricos da Bíblia, verifica-se que o choque de forças entre Judá e as restantes tribos de Israel surgiu como consequência do mesmo erro que levou Caim a matar o seu irmão Abel. Caim deixou-se levar pelo desejo de vingança e de restaurar o destino divino do seu pai, Adão. E, uma vez que o único que se interpunha entre Deus e o seu desejo era o seu irmão Abel, a resposta era óbvia; uma vez morto Abel, tendo Deus determinado que um dos filhos de Adão vingaria a sua Queda e herdaria a sua Glória perdida, uma vez morto Abel e não tendo Adão mais filhos, Caim obrigava Deus a ungir-no como seu campeão e herdeiro da coroa perdida de Adão.

O erro de Caim residia nos seus músculos. Ele não pensava com a cabeça, pensava com os pés. Não via Deus como Deus se vê a si próprio. E a partir deste erro, vendo Deus como um homem olha para outro homem, acreditou que o seu pensamento e o de Deus tinham o mesmo fim e princípio.

No caso judaico, o erro seguiu o mesmo esquema de raciocínio. Deus tinha prometido a um filho de David o reino universal e eterno (uma vez que somos cidadãos da civilização cristã e estamos a par da existência dos Salmos de David, não preciso de trazer aqui o maremágno de profecias a esse respeito).

Traduzida esta promessa para a mentalidade do século de Salomão, a Profecia vinha dizer que Deus tinha prometido aos judeus o Império.

Ámen, Aleluia, Deus é Grande.

O próximo Império a estender a sua bandeira sobre a Mesopotâmia, e daí até aos confins da Terra: seria o Império dos Judeus. A lógica dos factos assim o indicava. Com David, os hebreus tinham reunido o maior exército da época. Com Salomão, o reino dos judeus tinha acumulado o que é mais necessário para levar a cabo uma guerra de conquista: ouro e prata em quantidades infinitas. O herdeiro deste exército e deste tesouro seria o rei Messias, o herdeiro da Promessa do reino universal, cuja descendência se ergueria como dinastia até ao fim do mundo, e cujo reino se estenderia sobre a superfície de toda a Terra.

Jeroboão só tinha de seguir este raciocínio lógico para dar início à guerra pelo Império, retirar os exércitos dos seus quartéis, espalhá-los pelo Egito, Assíria, Babilónia, Fenícia, e os seus filhos encarregar-se-iam de Creta, Chipre, Grécia, Itália, Líbia, Média, Pérsia, e os seus netos da Índia, Escítia, Ibéria, Abissínia, Arábia... O sonho do Império dos Judeus que ainda hoje ressoa na cabeça de um remanescente dos loucos de Jeroboão e que, como se vê na própria Internet, a esquizofrenia paranóica belicista é idêntica à aquela que provocou a ruptura das Doze Tribos, ficando sozinhas as de Judá e Benjamim com o seu sonho de domínio universal.

A Galiléia, naquela época parte do reino de Salomão, compreendeu que Judá, ou seja, os judeus, após a morte do rei Salomão, tinham perdido o juízo e cometiam o mesmo erro de Caim: não ver Deus como Ele é, e cair no erro de acreditar que é Deus quem serve ao homem, que Deus existe para fazer a vontade do homem. Será que o grandíssimo rei Salomão, dotado de toda a sabedoria e força, não teria sido capaz de liderar o caminho se tivesse considerado que a Profecia se referia a ele, filho de David?

Para travar o processo de destruição do povo hebreu, teria bastado que Jeroboão tivesse seguido o conselho dos anciãos. Mas o conselho dos judeus pareceu-lhe melhor; ele próprio tinha sido criado a alimentar-se dessa ideia e, tropeçando na pedra de Caim, levantou o braço contra Abel, acreditando que o medo da destruição que a divisão suscitaria no horizonte obrigaria todos os hebreus a aceitar a política de factos consumados que pretendia impor-lhes. Um erro que lhes custaria, a uns e a outros, acabar como acabaram.

Uma vez que os judeus culparam as outras tribos de Israel pelo seu destino, a relação futura com elas foi de ódio até à Queda de Jerusalém. As tribos do reino de Israel retribuíram aos judeus com guerras constantes e contínuas. Durante três longos séculos, os judeus e os hebreus tiveram tempo de erguer entre si um muro de inimizade tal que nunca mais voltaria a desaparecer da estrutura mental judaica, sendo a partir deste lado do ódio que os judeus olharam com o desprezo que um hebreu merecia — por ser galileu — para Jesus da nossa História Divina. Um cuspidelho na cara por ser Galileu, do qual, evidentemente, São Pedro não se livrou e sofreu até ao fim dos seus dias. E isto apesar de São Pedro ser o mesmo que o nosso Jesus, da linhagem de David, ou seja, pelo sangue, mais judeu do que a própria Jerusalém.

 

30

A Queda de Samaria, a Branca.

 

Se o reino do Norte se deleitou ao ver Jerusalém ser saqueada, o preço da divisão do reino de David não tardaria a ser cobrado a Samaria pelas mãos do rei de Nínive. O que aconteceu em 721. Mas vejamos antes como Nínive conseguiu elevar-se a tal altura acima das cidades clássicas das Idades do Bronze e do Ferro.

O reino mitânio desapareceu da cena geopolítica em 1350 a.C., em consequência do cerco conjunto dos hititas e dos assírios.

Para nos entendermos melhor, digamos que os hititas reinavam sobre a Turquia Ocidental; os mitanianos sobre o norte da Síria e os assírios sobre o norte do Iraque.

A destruição de Mitani surgiu numa altura inoportuna. Pouco tempo depois, os filisteus — possivelmente os antigos gregos que, após invadirem o Império de Tróia, continuaram a sua marcha para sul — derrubaram o reino hitita e travaram a expansão assíria para o Ocidente.

Numa secção anterior, deixámos os casitas a reinar sobre as ruínas do império de Hammurabi. Com os casitas e os assírios em guerra, o controlo sobre a região a sul do Éden foi-lhe escapando das mãos à Babilónia, até que, por volta de 1310, aproximadamente, os antigos persas — os elamitas — se tornaram independentes e colocaram-se ao nível dos seus vizinhos.

Posteriormente, a Babilónia foi derrotada pelo assírio Tukulti Ninurta I, que estendeu o seu poder até ao Elam, mas apenas de forma esporádica, pois, por volta de 1215, Susa conquistou a independência e ergueu-se como potência militar. O seu rei aproveitou então as circunstâncias da chegada dos filisteus para retirar a Nínive o controlo da Babilónia, que caiu em 1159 e arrastou na sua queda o último rei dos casitas.

Desencadeada a guerra pelo controlo do antigo reino casita entre assírios e elamitas, o desfecho tomou um rumo inesperado quando um tal Nabucodonosor I se ergueu como rei da Babilónia e libertou o seu país dos dois inimigos clássicos da sua nação. O que aconteceu em 1110. E manteve o conflito entre babilónios e assírios numa guerra de desgaste que resultou, em última instância, na hegemonia de Nínive. Uma hegemonia relativa, sem mais força na estrutura geopolítica imposta pela invasão dos filisteus do que a de manter vivas em Nínive as suas aspirações imperialistas. Que, se num início de tempos foi travada pelos bárbaros do Oeste, mais tarde foi contida dentro das fronteiras do atual Iraque graças à expansão do reino de Salomão por todo o Médio Oriente.

Com a divisão do reino de Salomão e o colapso de toda a infraestrutura sobre a qual o sábio rei edificou a sua Paz Internacional, Nínive aproveitou o vazio de poder a oeste do Jordão para criar o seu império.

Se, no início, Adad-Nirari I dirigiu os seus exércitos contra a Babilónia, os seus sucessores, compreendendo o desperdício de esforços que estavam a cometer, abriram a frente norte, conquistando a Média. Uma mudança de rumo que, com Salmanasar III, fixou o seu objetivo no Ocidente, onde a divisão do reino de Salomão deixou a Síria à mercia do seu exército. A sua entrada neste lado do Jordão só se verificaria após um processo de desestabilização interna. Processo esse que, concluído pelo lendário Tiglate-Pileser III, levou à invasão da Babilónia, à sua subjugação e ao desvio do seu olhar para o Oeste, para onde chegaram os exércitos de Nínive sob o comando de Salmanasar V.

O encontro com o reino de Israel reduziu a escombros o orgulho dos israelitas, a «Samaria Branca», como lhe chamavam. O que aconteceu no ano 721.

 

31

A Queda da Santa Jerusalém.

 

Agora, se o reino dos judeus se regozijou ao saber da notícia da destruição do reino dos seus irmãos, isso não sabemos. O que sabemos, sim, é que, uma vez pronunciado o decreto contra a divisão do reino, Jerusalém não escaparia ao mesmo destino que a sua irmã Samaria.

Nesta ocasião, não foram os assírios, mas sim os caldeus da Babilónia, destruidores de Nínive, que deram a Jerusalém o que merecia.

Os acontecimentos gerais foram os seguintes:

Os reis de Nínive expandiram o seu império para o Norte e para o Sul, conquistando a Média e a Babilónia.

Salmanasar III, Adad-Nirari III, Tiglate-Pileser III e Sargão II, Senaqueribe e Assurbanipal — os seus reis mais famosos —, o ódio que semearam a norte e a sul do Éden voltou-se contra eles quando Nabopolassar, pai de Nabucodonosor II, rei da Babilónia, e Ciaxares, pai de Fraortes II, rei de Ecbatana, capital da Média, se uniram para destruir o rei de Nínive, objetivo que alcançaram em 612.

A divisão do mundo feita pelos medos e babilónios deixou as terras do Oeste nas mãos da Babilónia. Ao subir ao trono, o filho de Nabopolassar, Nabucodonosor II, atravessou o Jordão e destruiu Jerusalém em 587. Todos estes factos estão descritos no Antigo Testamento.

Com a destruição de Jerusalém e Samaria, o decreto divino: «Todo o reino dividido em si mesmo será destruído», cumpriu-se, ficando o seu julgamento como exemplo para todo o reino que, no futuro, pretendesse escapar ao seu destino.

 

32

O Maligno.

 

A Antiga Serpente saltou de alegria entre as paredes do seu silêncio quando Jerusalém caiu.

Em que mente pode caber a ideia de que Deus precise de óculos de raios X para radiografar, de um só olhar, o interior das suas próprias criaturas, Senhor?

A Queda de Jerusalém foi mais um ponto a favor daqueles que defendiam a destruição do Homem e acreditavam que o Messias das profecias já tinha tudo perdido de antemão. Deus devia aceitar de uma vez os factos: ao criar o homem, as coisas tiveram um desvio. A humanidade nunca mais ultrapassaria a fronteira entre os animais e os filhos de Deus; demonstrava uma tendência instintiva tão lógica na sua espécie que a mera ideia de ver o filho de um homem a desafiar para um duelo até à morte Satanás poderia ser considerada uma ofensa, se não fosse pelo ridículo da ideia.

 

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As Três Colunas do Mundo.

 

Durante aqueles dias, na Babilónia dos caldeus, cinco séculos antes do Nascimento, viveram três crianças prodigiosas.

O primeiro nasceu para ser profeta e deixar o mundo inteiro de boca aberta. Os seus pais chamaram-no Daniel, mas Nabucodonosor deu-lhe outro nome.

A doutrina messiânica de Daniel fez calar as risadas dos judeus ortodoxos que continuavam a acreditar na vinda imediata do Messias. Segundo Daniel, o Profeta-Mago, a profecia estava destinada a se concretizar só daqui a cinco séculos, mesmo depois de ter sido escrita pelo rei David.

 

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Zorobabel.

 

O segundo menino nasceu para liderar a caravana da liberdade, conduzir o seu povo à Pátria Perdida, ressuscitar Jerusalém das cinzas da História e erguer um Templo à Sabedoria. Os seus amigos chamavam-lhe Zoro, mas o rei da Babilónia chamava-lhe de outra forma. Zoro era o príncipe herdeiro da coroa de

 

CAPÍTULO 6

 

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Ciro, o Grande.

 

O terceiro menino chamava-se Ciro. Este Ciro era filho da princesa meda casada, segundo Heródoto, com o príncipe dos persas. Heródoto não conseguiu resolver o enigma da origem de Ciro devido à falta de conhecimento sobre as estruturas de sucessão das monarquias mesopotâmicas.

Graças ao nosso conhecimento atual das estruturas de poder clássicas durante a Era Pré-cristã, estamos em posição de reconstruir a arquitetura das relações internacionais típicas da época neobabilónica.

A verdade que brilha no fundo do túnel ilumina-nos o caminho para descobrir os mecanismos imperiais que tiveram de ser adotados para levar ao Trono Imperial o Príncipe Ciro.

A esposa de Nabucodonosor era filha de Ciaxares, rei dos medos. Este Ciaxares foi aliado de Nabopolassar, pai do príncipe Nabucodonosor.

Ciaxares e Nabopolassar aprisionaram o rei de Nínive no seu palácio e enterraram-no sob os escombros do seu império. Para comemorarem a grande vitória, casaram os seus filhos. Ciaxares deu a sua filha ao filho do rei dos caldeus; e este deu o seu filho à filha do rei dos medos.

O irmão da esposa de Nabucodonosor herdou o trono da Média e casou a sua filha com o príncipe da Pérsia, pai de Ciro. Ciaxares foi, segundo isto, o bisavô materno de Ciro, e Nabucodonosor o seu tio-avô — o tio da mãe é tio-avô para os seus filhos.

Se Nabucodonosor foi genro de Ciaxares, Fraortes e ele eram primos. E se era primo do filho de Ciaxares, Nabucodonosor era tio da mãe de Ciro.

Conclusão: Ciro era sobrinho-neto do rei da Babilónia e neto do rei da Média.

Um jogo de probabilidades gordianas desta natureza levou Carlos V ao trono da Alemanha.

Um príncipe persa poderia aspirar a reunir nas suas mãos as três coroas «quando as galinhas puserem cachorros» — dizia o provérbio popular babilónico.

Era necessário que muitos cálculos coincidissem para que a possibilidade se concretizasse. Ou poderia acontecer que fosse convidado a fazer parte de um projeto de unificação do mundo numa única coroa e...

Resumamos:

À luz das conclusões que têm vindo a ser elaboradas a partir das traduções das bibliotecas desenterradas do Médio Oriente pré-cristão, podemos recriar a verdadeira estrutura das relações internacionais que permitiram a Ciro, o Persa, conquistar um império.

As Histórias de Heródoto, sem com isso lhes retirar o seu valor, foram escritas a partir da ignorância da importância do elemento bíblico no desenrolar dos acontecimentos mundiais da época. É, até certo ponto, curioso ver como aqueles que se autodenominaram historiadores, cegos pelo seu ódio antisemita e pelos seus preconceitos anticatólicos, foram incapazes de penetrar por detrás da tela de fábulas que Heródoto recolheu como norma de verdade e transmitiu ao futuro envolta no manto dourado da Idade Clássica. Não sendo um historiador dos nossos dias, mas apenas isso, um escritor do seu tempo, não se pode pedir ao autor das «Histórias» outra coisa senão que reflita nos seus escritos a ignorância que prevalecia na sua época sobre as coisas do passado. A partir do nosso conhecimento do poder e da história, é preciso dizê-lo, a esta altura é preciso ser um verdadeiro idiota para acreditar que o general-chefe das forças militares do reino da Média entregou a coroa de Ecbatana ao rei da Pérsia apenas pelo seu rosto bonito, o de Ciro, até então um reino de segunda importância no jogo político.

E à luz do conhecimento que temos agora, é preciso ser mais do que um tolo para acreditar que o rei da Babilónia, a superpotência da época, se manteve à margem da marcha triunfal do persa, com a sua inatividade a oferecer o Império àquele que até então era seu vassalo, apenas pelo rosto bonito de Ciro. Num mundo onde o ferro era a lei e a verdade pertencia à força, as tolices que Heródoto escreveu sobre a ascensão ao poder de Ciro só podiam ter lugar na mente de um pastor analfabeto, o que, afinal, bem pensado, era a imensa maioria do mundo: um povo analfabeto, cujo analfabetismo se referia mais ao conhecimento das leis do Poder do que ao das letras que compõem o alfabeto. Foi contando com este analfabetismo do povo em relação às leis do Poder que Heródoto escreveu a série de disparates que, no que diz respeito a Ciro, ele chamou de «Histórias».

São os factos que apresentam o seu testemunho e apagam a inscrição na parede, feita por sábios da estatura de Heródoto, gravada na nossa memória. Sabemos com certeza que, nos dias de Nabonido, as cidades imperiais das fronteiras do reino da Babilónia dos caldeus estavam nas mãos de oficiais judeus. Qualquer historiador profissional pode confirmar esta informação, que, se proferida por um amante da verdade é uma mera suposição, nas mãos de um mercenário da informação histórica soa como isso mesmo, como conhecimento.

Mas o que se torna totalmente inacreditável é que estes mercenários ao serviço do Poder nunca tenham dedicado uma única linha ao fenómeno tão singular que se apresenta aos nossos olhos quando se descobre que um povo de escravos se levanta até chegar a deter as chaves do reino do seu senhor e mestre.

O culpado por esta situação tão atípica e fenomenológica foi, sem dúvida alguma, o profeta Daniel, chefe do Conselho Privado de Nabucodonosor. Mas o que, para mim, pessoalmente, me fascina é ver como os especialistas em estrutura imperial, o povo britânico, sendo um dos artífices da descoberta das Bibliotecas do Antigo Médio Oriente, esses especialistas em estrutura imperial tenham se comportado como pastores analfabetos no que diz respeito ao que é um Império e à série de forças estruturais que o movem, eles que tiveram nas suas mãos um dos maiores impérios que a Terra já conheceu. Parece uma palhaçada, portanto, que precisamente os imperialistas por excelência, o povo britânico, perante a série de disparates de Heródoto sobre a ascensão de Ciro, o Persa, tenham reagido como o pastor da fábula.

O facto de os exércitos das fronteiras do reino dos caldeus estarem nas mãos de generais judeus só se explica a partir da Bíblia. Ao conciliar esta com a Verdadeira História do Reino dos Caldeus, verifica-se que o golpe de Estado que levou Nabonido ao poder ocorreu imediatamente após a orgia de Balthazar, golpe liderado por Daniel, profeta e chefe dos Magos da Babilónia, golpe de Estado que vinha a ser preparado há já algum tempo e para o qual serviu de sinal de partida o famoso relato da escrita na parede.

Observamos na história do reino de Nabonido que este delegou todas as funções imperiais na sua corte, dedicando-se ele, na qualidade de rei fantoche, a desenterrar cidades perdidas no deserto. Foi sob esta corte, dominada pelo chefe do Conselho Privado de Nabucodonosor, que os até então escravos assumiram o comando dos exércitos das fronteiras, o que mais tarde lhes abriria as portas a Ciro, uma conquista pacífica que o novo rei da Babilónia pagaria, não com ouro, mas com a liberdade, como bem se vê no famosíssimo, mas desconhecido a nível histórico internacional, Edito de Liberdade Religiosa de Ciro, cujo conteúdo traduzirei ao longo desta secção.

 

Crónicas medas

 

Observemos como o ódio antissemita dos historiadores da Idade Moderna e o seu fanatismo anti-eclesiástico turvaram as suas mentes ao ponto de cegar os seus olhos perante o inacreditável facto de o general-em-chefe da segunda superpotência da época, a Média, ter entregue a coroa do seu rei e senhor a um príncipe vassalo, e isto sem que houvesse uma única batalha, limitando-se a dizer: Amém.

Seria a primeira vez na história da humanidade que um exército superior se rendesse a outro inferior apenas pelo rosto bonito do inimigo invasor, neste caso Ciro, o Persa.

Heródoto, sendo o que foi, um homem do seu tempo, em caso algum um historiador dos nossos dias, limitou-se a escrever a série de disparates que circulavam na sua época sobre a ascensão de um príncipe de segundo plano ao topo do império, fenómeno inexplicável que apenas a partir de uma perspetiva mítica o povo era capaz de compreender, e que ele, um simples escritor, se limitou a recriar anos depois dos acontecimentos, demonstrando ter pouca vocação para historiador e muita para aquilo que era, isto é, um escritor.

Era impossível que um príncipe da Pérsia, Ciro, não tivesse estado sujeito a vassalagem na corte da Babilónia. Recordemos que, após a divisão do mundo por Ciaxares e Nabopolassar, fruto da destruição do império de Nínive, a Pérsia ficou relegada ao que sempre fora: uma potência obscura, com a diferença de que, desta vez, à sua volta, a norte e a oeste, se tinham erguido dois reinos fortes, perante os quais ao príncipe de Susa só lhe restava a vassalagem.

É verdade que, por acordo, Ciaxares submeteu a Pérsia à influência do seu cetro e que Nabopolassar cedeu essa influência em troca da fronteira ocidental, mais rica e mais necessitada da sua atenção, se tivermos em conta que do outro lado do Jordão e a oeste do Sinai se situava o Egito. Mas não é menos verdade que a Média e o seu rei tinham na sua fronteira ocidental outro inimigo potencial de grande importância nos povos helenísticos.

A Pérsia ficou relegada para o recanto do império, em teoria dependente do rei da Média, mas, na prática, exposta à corte do rei da Babilónia. Se a independência da Pérsia é respeitada, isso deve-se a um acordo entre vencedores que serve de símbolo de amizade perpétua entre Ecbatana e a Babilónia. Qualquer revolta militar em prol da independência real de Susa poderia ser esmagada a qualquer momento, tanto pelos caldeus como pelos medos. Daí que, se Ecbatana procurava uma aliança com Susa para manter fechada a fronteira com a Babilónia, Susa procurava a aliança com a Babilónia a fim de manter a sua autonomia face a Ecbatana, o que se selava, como era habitual naquela época, através da entrega, na qualidade de «hóspede-refém», de um herdeiro da coroa, neste caso Ciro.

Temos portanto que Astiages, o Gordo, herdeiro de Ciaxares e rei de Ecbatana, casou uma das suas filhas com o pai de Ciro, numa aliança contra a Babilónia, que Susa aceitou como garantia de autonomia face à corte de Nabucodonosor. E, por sua vez, o pai de Ciro entrega como«refém»um dos seus filhos ao rei da Babilónia, num gesto de submissão à coroa de Nabucodonosor, obrigando a Babilónia a servir-lhe de baluarte contra qualquer violação dos acordos assinados entre Ciaxares e Nabopolasar sobre o estatuto da Pérsia.

A fim de ocultar a teia de relações que tornou possível a ascensão do príncipe persa ao trono imperial — e que iremos desvendar até ao fim —, foi ampliado o conto infantil sobre a perseguição do filho da princesa da Média, entregue como esposa ao pai de Ciro, a salvação mítica do seu filho por um pastor e a conquista prodigiosa da Média e da Babilónia sem travar sequer, ou pelo menos, uma batalha. Que dizer, pelo menos uma batalha! Mas não, nenhuma. E o mais curioso, surpreendente e fascinante não é que um escritor de coisas fantásticas da sua época não se tenha espantado com o conto; o mais alucinante de tudo é que os próprios que pretendem dar-nos lições de História Universal tenham engolido esta história. E o que mais dá risa é ver que essas gargantas tão profundas foram capazes de afirmar as «Histórias» e negar a História: afirmando, no Século das Luzes — Deus nos livre das suas luzes —, que nunca existiu uma Nínive, nem uma Tróia. Afirmações para idiotas que, se sob as Luzes da Idade Moderna foram tomadas no século XVIII como palavra de Deus, no século XIX Deus mergulhou as mãos no barro e esfregou-lhes Nínive na cara. Não é nenhuma acusação, mas sim retirar-lhes a máscara de infalibilidade que os historiadores do século XX reivindicaram para si.

Os factos falam por si. Primeiro, a Média. O general-chefe do reino dos medos desce do seu cavalo e coloca as suas forças militares às ordens do príncipe de um reino vassalo. De ânimo leve!

Um ato incrível que a lenda assinada por Heródoto atribui aos ciúmes do general-chefe das forças medas, que, ressentido porque a mãe de Ciro, outrora sua noiva, lhe fora arrebatada pelo seu rei e futuro sogro para ser entregue como esposa ao rei da Pérsia, blá blá blá... uma história digna dos contos de uma Noite de Verão de Shakespeare... porque o rei Astiages teve um sonho em que via a sua dinastia destruída pelo fruto da união da sua filha com o chefe dos seus exércitos, oh la la!, e, aterrorizado, entrega a sua filha, a noiva do chefe dos seus exércitos, ao rei de Susa, afastando assim o perigo de Ecbatana, uma bola que, com o tempo, voltaria ao seu telhado para derrubar todo o edifício...

Pois é, de graça!, depois de entregar o reino a um príncipe vassalo, também toda a Babilónia abre as portas a este mesmo príncipe de segunda categoria... de graça!

Na verdade, é preciso ser um idiota para ouvir esta história e dar atenção a tais Crónicas da Verdadeira História da Humanidade.

E tudo isto depois de a Babilónia ter contido o Egito, fechando ao faraó o caminho para a Lídia; um faraó que, apesar de se encontrar nos antípodas destes acontecimentos, se tinha levantado e estava a pressionar o rei da Babilónia para se levantar e fazer alguma coisa, unir-se a Creso e devolver a Astiages o trono que o seu servo lhe tinha roubado para Ciro, sem qualquer motivo!

Creio eu que é preciso ser um verdadeiro idiota para não ver, naquela marcha triunfal de um príncipe de segunda classe nas relações do Poder da época, uma teia de forças internacionais unidas por uma mesma causa, núcleo pensante e dirigente das ações de todos aqueles que entregaram o Império a Ciro, a quem ele retribuiu com o Edito da Liberdade, que se ergue como a nossa principal e mais poderosa prova da ligação do mundo judaico com a mudança transcendental que toda a civilização sofreu na sequência da ascensão de Ciro ao trono imperial.

 

O Mistério de Dioces, o Medeu

 

Outra das histórias que os eminentes historiadores da Idade Moderna relataram sem se abalarem, ou seja, sem qualquer desejo e muito menos capacidade para desvendar, refere-se ao mistério da formação milagrosa do reino dos medos. A lenda volta mais uma vez a elevar-se aos altares da História e deixa a misteriosa viagem de Dioces, fundador do reino dos medos — da qual regressou com as chaves daquela que viria a ser Ecbatana, a sua capital —, nas brumas do suculento universo dos mitos.

A estrutura histórica é inequívoca e não se presta a fábulas. Mas não esqueçamos que, se Heródoto não fazia a mínima ideia da existência da Bíblia, os historiadores modernos, cegos pelos seus preconceitos antissemitas, fizeram total sobre a revolução que tornou possível a transição de uma nação composta por tribos em estado bárbaro para uma sociedade sujeita a uma estrutura monárquica. E mantêm silêncio porque esta revolução teve lugar na sequência da deportação dos israelitas para as Montanhas do Leste.

Desde os tempos de Tiglate-Pileser I, lá no século XII a.C., os assírios já conheciam a existência dos povos bárbaros do Norte. Mas só nos tempos de Salmanasar III, no século IX, é que o confronto com esses bárbaros das montanhas a norte da Assíria se tornaria periódico. Salmanasar deparou-se com um conjunto de cerca de 27 tribos, cada uma delas sujeita ao seu próprio príncipe, e cuja estrutura militar e social era a típica de todas as nações indo-europeias nos seus primórdios, ou seja, anárquica, fruto da teoria da liberdade que sempre foi natural a todos os bárbaros.

Que aquelas 27 tribos do Norte provinham de outras partes do mundo e que entre elas se encontrava o povo dos medos, por sua vez dividido em tribos, é algo bem conhecido. O problema é que os historiadores modernos tenderam a moldar todos os dados com o objetivo de criar uma História à medida da sua mentalidade: que, no entanto, sendo a sua escola de mentalidade imperial, essa reconstrução não obedeceu, em caso algum, à Lei do Poder. De qualquer forma, há dados que lhes era impossível contornar e, por mais que lhes pesasse, tinham de aceitar como factos. A ligação entre os medos e os persas, refletida nas relações comerciais entre esses povos do Norte e as nações a sul da Assíria, é um desses dados incómodos que evitaram, na medida do possível, para não corrigirem as Histórias do seu mestre.

O facto é que, durante o reinado de Salmanasar III, os medos continuavam a ser tão selvagens como o tinham sido durante o reinado de Tiglat-Pileser I, dois e três séculos antes.

Entendo por «selvagens» o facto de não saberem estruturar um Estado nem definir uma civilização própria.

Samshi Adad IV e Adad-Nirari III — sempre no século IX — impuseram tributos aos medos e aos povos aliados das montanhas, mas sem nunca conseguirem reduzi-los ao jugo da Assíria nem conquistá-los para a sua civilização. A lei da liberdade dos bárbaros era preferível à lei da escravatura que imperava desde Nínive. E sob essa lei continuaram a multiplicar-se e a crescer.

Tanto que, quando Tiglat-Pileser III, em meados do século VIII, se lançou à conquista de glória e fama para a eternidade e invadiu o país do Norte, deparou-se com os chefes bárbaros, derrotando-os a todos, um por um: conduziu de volta à Assíria uma caravana de escravos que se contava por dezenas de milhares de pessoas. Pouco tempo depois, a geração seguinte rebelou-se contra o jugo assírio, mas sem outra consequência senão a repressão da revolta e a aniquilação de uma população já dizimada pela primeira guerra contra Tiglat-Pileser III.

Assim, quando Sargão II, em 722, arrasou o reino de Israel e destruiu Samaria, a Branca, cujas cúpulas de marfim brilharam ao sol dos séculos, para desespero do Deus de Abraão, Isaac e Jacob, que viu o povo eleito afundar-se na idolatria — factos já descritos na Bíblia —, e deportou os sobreviventes de Israel para a terra dos medos, a nação dos bárbaros do Norte, que experimentou uma transfusão de sangue guerreiro; sob cuja pressão, já aquecido pelo desejo de vingança da nação que recebeu este novo sopro de vida, se levantou em rebelião contra o inimigo comum, vivendo em conjunto a derrota e o exílio do líder da revolta, o misterioso e enigmático Dioces da Lenda Meda.

Devemos considerar uma vergonha para os historiadores do Antigo Oriente Médio o facto de nunca terem querido abrir os olhos para este encontro de dois povos num mesmo tempo e lugar: um altamente evoluído, o israelita, cuja origem como reino e Estado remontava aos dias de David e Salomão, e o outro no seu estado mais selvagem, ambos sujeitos ao mesmo despotismo imperial, e que selaram a sua união através do sangue derramado na revolta de que Dioces foi o líder. Esses historiadores da escola de Heródoto, inimigos por princípio da influência todo-poderosa do elemento semita na História da Civilização — na medida em que o semita é o judeu —, encerram o capítulo da confluência destes dois povos, o israelita e o medo, na revolta contra o inimigo comum, Sargão II, afirmando que as tribos bárbaras voltaram a submeter-se ao jugo, enterrando assim as suas proeminências no esquecimento — a «Conexão Israelita».

Esta ligação israelita ao futuro do povo medo tornou-se tão decisiva e transcendental que o que até então era impossível — unir todas as tribos numa única nação — tornou-se realidade e, da noite para o dia, os bárbaros elegeram um rei, construíram uma capital e organizaram-se sob a estrutura de um Estado. Ora, a explicação para a criação de um Estado da noite para o dia tem duas vertentes. Uma é para mentes limitadas, a outra é a expressão da realidade. A Idade Moderna preferiu a primeira. A realidade é que a evolução, ao longo de uma geração — a de Dioces —, da transição de uma estrutura bárbara para outra estatal, implicou uma verdadeira revolução. E para que esta se concretizasse, era necessário contar com especialistas na matéria, um povo altamente civilizado, formado na estrutura de poder que representa a formação de um reino.

Esta revolução ocorreu precisamente quando o povo israelita entrou na Média. E qualquer explicação para esta transição revolucionária, através da qual um povo composto por muitas tribos bárbaras, em estado de anarquia durante séculos, se funde numa Coroa e num Estado imperial, que não passe por esta ligação, resulta numa história para pastores analfabetos, que seria a história que Heródoto relatou ao falar de Ciro.

A formação do Império de Ecbatana tinha um único objetivo: a destruição de Nínive. Foi sob a força da vingança perpétua, selada com sangue durante a revolta que Sargão II reprimiu contra os israelitas e os medos, que o neto de Dioces, o Ciaxares da História Universal, e pai daquela que viria a ser a esposa de Nabucodonosor, fez com que a nova nação, fruto da união do povo israelita com a nação dos medos, se lançou contra a Assíria e arrancou Nínive de raiz da superfície da Terra.

 

Queda de Nínive

 

Na aquela revolução fundadora que esteve na origem da formação do reino medo, e como é de compreender a partir da lógica do Poder, para conferir coesão à sua coroa militar, Dioces completou o quadro do seu estado-maior com o elemento israelita, agora uma tribo unida pelo laço de sangue à nação dos medos e pelo Estado à coroa do rei de Ecbatana. Tratava-se do estabelecimento de uma monarquia civilizada sobre um substrato bárbaro, em que a liderança era mantida pelo elemento bárbaro, e a sua consistência assentava no elemento estrangeiro, altamente evoluído, mas que, devido à sua condição de nova tribo, não podia assumir a coroa. E esta estrutura de obediência ao monarca, algo natural no elemento israelita, mas estranha ao sangue bárbaro, seria a coluna fundamental sobre a qual a dinastia de Dioces baseou o seu poder militar.

Que a sede de vingança movia ambos os povos, o israelita e o medo, e foi o seio em que ambas as linhagens se uniram para conceber a Coroa de Ecbatana, vê-se na fervor com que o herdeiro de Dioces, Fraortes, o Jovem, se lançou contra o inimigo comum. A culpa, como sempre, do assírio.

Durante o reinado de Senaquerib, o Bibliotecário, o jugo de Nínive pesou de forma criminosa sobre todas as nações a oeste do Eufrates. Preocupado em abafar com sangue o grito de liberdade dos povos a oeste do Eufrates, Senaquerib descuidou-se dos bárbaros do Norte, e Dioces aproveitou essa negligência para consolidar a sua revolução e legar à sua dinastia um exército forte, preparado para saciar a sede de vingança da Nova Nação. Graças à aventura de Senaquerib no Ocidente, Dioces estendeu a sua influência nas costas de Nínive, celebrando com o povo dos persas a aliança típica entre amigos por inimizade para com um inimigo comum.

Após a morte de Senaquerib e Dioces, os filhos de ambos enfrentaram-se no campo de batalha. Mas Assurbanipal revelou-se um rival demasiado forte para Fraortes, o Jovem, cujo reino ainda não tinha amadurecido o suficiente para equiparar a sua estrutura à de um império. Assim, o seu sucessor, Ciaxares, retirou-se para o seu reino a fim de dar-lhe o toque final. Que, como todos sabemos, atingiu o seu apogeu em 606, o ano em que a sede de vingança da Nação do Norte se embriagou com o sangue do inimigo odiado, o assírio, cuja capital foi arrancada da face da Terra para nunca mais ser habitada pelos séculos dos séculos, tal como anunciado por Deus no Seu Livro.

Entre a ascensão de Ciaxares ao trono e a destruição de Nínive, temos a invasão da Média pelos bárbaros das estepes siberianas, que atrasou a Hora Final, mas que não conseguiu impedir que o desígnio divino se cumprisse à risca. No franco daquele grito de vitória, quem tem ouvidos para ouvir ouve a língua do hebreu erguer-se ao lado da do medo, ambas as almas embriagadas pelo prazer dos deuses, ambas a elevar aos seus deuses a mesma ação de graças.

Não devemos esquecer que Heródoto, grego, desconhecia a Bíblia e, por isso, a sua capacidade de descobrir a existência do elemento israelita na origem da Revolução Meda fica amplamente justificada; nem devemos deixar de ver que os historiadores modernos, conhecendo a Bíblia e a história do Oriente Médio pré-cristão, tapavam os ouvidos e arrancavam os olhos em vez de reconhecerem o poder da influência do elemento semita, encarnado no povo israelita, ao falarem da irrupção na História Universal do reino dos medos. Será a partir desta ligação que se explica como um estado-maior, composto pelo elemento israelita, dispôs a transferência da coroa, que ele próprio criara, das mãos da casa de Dioces para as da casa de Ciro. Razão essa que será explicada seguindo esta mesma estrutura de raciocínio.

 

Crónicas da Babilónia

 

Mas se os assírios semearam no Norte a semente de um ódio todo-poderoso que, a seu tempo, daria frutos, a sul de Nínive esse ódio já era um facto que, agazapado como a leoa que contempla sentada a sua vítima, o governador da Babilónia aguardava o seu momento. Esse momento chegaria à Babilónia com Nabopolassar.

A par do avanço do rei de Ecbatana, Nabopolassar lançou-se contra o rei de Nínive, aplicando-lhe a mesma lei que este tinha aplicado a todas as nações. Depois de esmagar o Império Assírio, Nabopolassar subiu ao trono, estabelecendo entre ele e Ciaxares uma aliança de paz mútua, selada com o casamento entre a filha do rei do Norte e o filho do rei do Sul.

E seguiu-se imediatamente a divisão do mundo.

O rei da Babilónia ficou com o território a sul dos Montes Tauros, deixando todo o norte, e desde lá até aos confins da Anatólia Ocidental, para o rei da Média. O rei da Média deixava ao rei da Babilónia o território a sul dos Tauros, e desde lá até aos confins da Palestina, da Arábia e do Egito. Nas costas de ambos os reinos ficava a Pérsia, região autónoma sujeita, em princípio, ao vassalagem da coroa de Ecbatana, mas submetida à influência política da Babilónia. A Pérsia, região sem um verdadeiro exército nem uma força estatal unificada própria, via o seu poder como inimigo reduzido ao de uma província fronteiriça ao serviço dos interesses mútuos de ambos os reinos. Devido à aliança matrimonial entre Ecbatana e a Babilónia, qualquer revolta de Susa esbarraria numa barreira impossível de transpor. No entanto, qualquer ultrapassagem dos limites de influência sobre a Pérsia ditados por ambas as potências poderia alterar o equilíbrio de forças e transferir a dependência de Susa de uma coroa para outra. Um desequilíbrio que não interessava nem às coroas aliadas, ambas empenhadas nas conquistas do Ocidente, uma pelo Norte e outra pelo Sul, nem à própria coroa da Pérsia, demasiado fraca para resistir a um ataque conjunto das forças de Ecbatana e da Babilónia.

Pelo Norte, Ciaxares chegou até ao reino da Lídia, cuja conquista não se concretizou, e pelo Sul, o rei da Babilónia chegou até ao Grande Mar, onde o filho de Nabopolassar destruiu o reino de Judá, tal como está escrito.

Tal como anteriormente o reino de Israel fora apagado da face da História, agora cabia ao reino de Judá. E tal como anteriormente o assírio deportara a flor e nata da juventude israelita sobrevivente para terras estrangeiras, com o intuito de humilhar o seu orgulho e eliminar para sempre o perigo de uma revolta, Nabucodonosor fez o mesmo com os sobreviventes de Jerusalém e do seu reino, deportando para a terra dos caldeus a flor e nata da nação sobrevivente.

Se, no primeiro caso, a deportação não significou escravidão, mas sim partilhar o mesmo ódio e desejo de vingança com a população da terra para onde os israelitas foram deportados — unindo-se a ela, da qual surgiu, da fusão, uma Nova Nação, com capital em Ecbatana —, neste caso, a deportação dos judeus significou escravidão no seio da terra daqueles mesmos que destruíram o seu reino.

Que revolução poderia levar ao poder este povo de escravos cujo senhor tinha tanta ou mais experiência do que o próprio povo judeu sobre a natureza estrutural de um Estado e de um Império! Nenhuma. A menos que... De facto, Deus elevasse um judeu à posição de chefe supremo do Conselho Privado do rei da Babilónia. E mesmo assim, e apenas se esse homem de Deus conseguisse superar todas as intrigas contra a sua pessoa que os membros do Conselho Privado do rei lhe iriam colocar no caminho.

Os historiadores da Idade Moderna, mais preocupados em irritar a Igreja Católica do que em penetrar nas estruturas do Passado, descuidaram-se da influência e do poder dos magos na corte de Nabucodonosor. O ódio ao elemento semita, por ser judeu, manifestou-se sempre mais forte do que o seu sentido da verdade e, sempre que avistavam qualquer possível ligação hebraico-judaica, viravam as costas e ignoravam completamente a tarefa de fazer história, limitando-se a fazer jornalismo do passado: tal ano, tal rei, tal guerra. Ponto final.

Mas o facto de, na época do governo de Nabonido, o último dos caldeus, de origem assíria para piorar ainda mais a situação, as chaves das grandes cidades fronteiriças estarem nas mãos de generais judeus — dado que qualquer historiador pode confirmar —, revela que o poder do chefe do Conselho Privado do rei e chefe dos Magos da Babilónia, era de um alcance extraordinário. Tanto mais extenso quanto mais poderosa fosse a figura do momento. No caso do profeta Daniel, este poder deve ser multiplicado à sua potência máxima se tivermos em conta a sua sobrevivência após a morte de Nabucodonosor e a sua presença na conspiração que derrubou a sua dinastia e entregou a coroa a um príncipe estrangeiro, o Nabónido da História. Ou será que se produz uma mudança dinástica sem que haja uma revolução por trás? A ingenuidade dos historiadores modernos em não ver qualquer revolução numa mudança de dinastia é tão grande quanto a sua perversidade em virar as as costas à verdade, desde que com isso satisfizessem a paixão que os levava a provocar a Igreja, com o único objetivo de demonstrar que são eles, e não Deus, os verdadeiros artífices da História — se não da que é, pelo menos da que foi.

Assim, temos dois elementos de um mesmo corpo que se encontram no extremo oposto para entregar a Coroa do Império ao nosso Ciro. De um lado, o elemento israelita na origem da Coroa de Ecbatana e, do outro, o elemento judeu à frente das cidades fronteiriças do reino da Babilónia.

Resta-nos definir a natureza da revolução que levou Nabonido ao poder, Ciro ao Império e Zorobabel ao regresso à Pátria Perdida.

 

Crónicas Persas

 

Poderíamos dedicar um livro inteiro, de caráter enciclopédico, a este tema da ascensão de Ciro ao Império e ao seu Edito de Liberdade Religiosa.

Os ângulos são tão ricos em mistérios suculentos que dificilmente se poderia ignorar uma nova versão da História.

Em primeiro lugar, devido à série de impossibilidades expostas, ao ignorar as quais um príncipe de segunda categoria enfrenta as superpotências da época e triunfa, escrevendo o que Júlio, da Casa de César, viria a assinar: «Vini, vidi, vincit», mas este Júlio da Casa dos Aqueménidas sem ter de travar uma batalha digna desse nome, exceto aquela que travou contra Creso, o Lídio; e, em segundo lugar, porque desde quando é que, na cultura da nação persa, a liberdade religiosa figurou como emblema.

Ainda nos nossos dias, a genética trai aqueles que se proclamam sucessores daquele Ciro, defensor das liberdades religiosas, e que, dizendo-se seus sucessores, entendem por liberdade religiosa a destruição de todos os infiéis, especialmente se forem judeus.

Naquele jogo de forças entre as superpotências da época, era natural que as alianças matrimoniais abrissem e fechassem caminhos. Por esta razão, o facto de o filho de Ciaxares, Astiages, o Gordo, ter casado uma filha sua com o príncipe da Pérsia não implicava qualquer direito de Susa à coroa de Ecbatana, da mesma forma que o casamento entre a filha de Ciaxares e o filho de Nabopolassar não conferia qualquer direito ao rei de Ecbatana sobre a coroa da Babilónia.

Desculpando Heródoto pela sua ignorância, qualquer historiador sabe que a princesa entregue em casamento de aliança passava diretamente a viver sob a coroa do príncipe consorte. A fábula do príncipe Ciro, filho deste casamento, que teria sido condenado à morte e salvo por um pastor, não tem qualquer valor, a não ser o de tentar, de alguma forma, salvaguardar o direito de Ciro ao trono da Média e revestir a sua incrível ascensão ao Império com o manto da providência dos deuses.

Era impossível que um príncipe de segunda categoria, como disse antes, sonhasse com a conquista de todas as coroas das superpotências da época e, o que é ainda mais fantástico, sem sequer ter de travar uma única batalha. Oh la la!

Superando, portanto, Heródoto, voltamos à realidade. E a realidade é que, se Astiages casou uma das suas filhas com o príncipe herdeiro da Pérsia, como costuma acontecer em todos os casamentos deste tipo: esta aliança tinha como objetivo manter a autonomia de Susa face à Babilónia, com Ecbatana a servir de lembrete à Babilónia de que qualquer adesão que ultrapassasse a sua influência política sobre Susa daria origem a uma guerra legitimada pelo sangue entre as coroas.

Pelo lado de Susa, enquanto o rei dos persas assegurava o apoio do rei dos medos graças ao casamento entre o seu herdeiro e a princesa de Ecbatana, jogando em dois campos — coisas do poder! —, o rei dos persas mantinha a sua independência política face ao rei de Ecbatana: vassalagem ao rei da Babilónia, assinando com o caldeu o clássico acordo de refém de um herdeiro, pelo qual o primeiro, um reino de segunda linha, obtinha do segundo, um reino de primeira magnitude, proteção e assistência ao abrigo da sua independência em relação ao rei dos medos. Seria nesta corte, e não na cabana de nenhum pastor, que Ciro seria criado.

Recordemos que, na altura em que Ciro teve de ser entregue — daí a lenda do seu desaparecimento de Ecbatana e Susa — às mãos da Corte caldeia, a chefia da Casa dos Magos e a presidência do Conselho Privado do Rei da Babilónia, e, portanto, no comando dos reféns reais, este poder estava nas mãos de um judeu chamado Daniel.

Observemos ainda que o mesmo processo que Nabucodonosor levou a cabo com Jerusalém, destruindo a cidade e levando consigo os seus príncipes sobreviventes, esse mesmo processo foi o que o seu pai, Nabopolassar, levou a cabo com Nínive, destruindo a cidade e deportando para o seu reino os seus príncipes sobreviventes, dos quais, da mesma forma que dos judeus sobreviventes surgiria o príncipe Zorobabel, ambos criados na corte de Nabucodonosor sob a tutela do próprio Chefe da casa do rei, o mago e profeta Daniel, surgiria mais tarde Nabonido, o futuro rei após o golpe de Estado que derrubou a dinastia de Nabucodonosor.

Ciro, a encerrar esta incursão, estava ligado, por parte de mãe, à coroa dos medos e, por parte do avô materno, ao próprio Astiages, filho de Ciaxares. Astiages, irmão da esposa de Nabucodonosor, sendo o avô materno de Ciro, ligava o seu neto, sem o querer, à coroa da Babilónia. A oportunidade de unir estas três coroas — a persa, a caldeia e a meda — numa mesma cabeça era extraordinária. Ciro tinha direitos legítimos de sangue sobre as três coroas da época. Obviamente, para tal, era necessário derrubar a dinastia de Nabucodonosor, colocar no trono um rei fantoche, Nabonido, submeter as cidades fronteiriças a homens fiéis ao Mago da Babilónia, judeus como ele próprio, e superar o confronto com o rei de Ecbatana. Algo não muito difícil de fazer se o Grande Mago do Oriente tivesse em conta que o quadro do Estado da Coroa da Média estava nas mãos de descendentes de israelitas, todos filhos do mesmo Abraão, nos ouvidos dos quais a Vontade de Deus, que tinha dispostos a ascensão ao trono de rei dos reis de Ciro, o persa, encontraria uma alma bem disposta.

Qual seria o preço que Ciro pagaria?

A Liberdade!

 

Crónicas Judaicas

 

Nem tudo o que reluz é ouro. E no invólucro da imagem antissemita arquetípica, que retrata o judeu como o clássico avarento, criatura miserável a rastejar entre as esferas do poder, o ouro não só não reluz como é pura pintura. Só após a destruição de Jerusalém pelos romanos e a coexistência do judeu no Islão e contra o cristianismo é que esta imagem começou a ser construída e se completou, transformando o judeu na mais abjeta espécie de verme, sem lealdade para com ninguém e capaz de trair o amigo de hoje se o inimigo de ontem chegar ao poder e a sua sobrevivência amanhã depender da do inimigo de hoje, que foi o amigo de ontem. Mas no que diz respeito ao hebreu, israelita ou judeu, dos tempos anteriores a Cristo, e especialmente durante os séculos XVI a VI, ou seja, um milénio inteiro, o hebreu era um guerreiro nato forjado no campo de batalha, cuja fama se consolidou a nível mundial durante os dias de David.

Mas acreditar que um guerreiro nato é esmagado enquanto o seu peito ainda tem vida é um erro, que, com o passar do tempo, custou a existência a Nínive. Um guerreiro só deixa de existir quando morre. O próprio espírito de liberdade opôs o reino de Judá ao império da Babilónia. A imagem que o mundo daquela época tinha do judeu era a de um soldado corajoso e valente. Uma verdade que realça a porta que se lhe abriu para a liberdade através da sua entrada no exército babilónico, servindo no qual os seus chefes chegaram a alcançar os mais altos cargos nas cidades das fronteiras do reino. Com a ajuda do chefe dos Magos? Pois sim, sempre; mas nenhuma influência tem peso quando se trata de defender cobardes que, se assim fossem, nem mesmo dez como Daniel, o rei da Babilónia teria aceitado as suas nomeações para guardas dos Portões do Reino.

O Edito da Liberdade que Ciro assinou ao entrar em Babilónia tinha sido redigido há muito tempo e o novo rei da Babilónia limitou-se a apor o seu selo. Este Edito é a chave que abre a porta a todo o mistério daquele século: a ascensão de Ciro, a queda da Babilónia e de Ecbatana, a cumplicidade da Babilónia perante a queda do reino da Lídia e a sua recusa em aliar-se ao Egito para apoiar a Lídia e impedir a fundação do império de Ciro. E, ao mesmo tempo, permite ver a natureza da caravana que o príncipe Zorobabel liderou desde a Babilónia até Jerusalém.

Quero dizer que Zorobabel conduziu um exército armado, enriquecido pelos tesouros da Comunidade da Grande Sinagoga do Oriente e exaltado pela tribo sacerdotal, mas, acima de tudo, Zorobabel era príncipe e aqueles que o acompanharam foram os mesmos generais e soldados que abriram as Portas do Reino a Ciro, dos quais Ciro felizmente se livrou, pensando que, tal como tinham desertado do seu antigo senhor, poderiam desertar do novo senhor, e que para o seu Império era melhor ter tais servos, leais apenas ao seu Deus, fora do exército do que dentro do exército.

O relato bíblico é prova suficiente para confirmar a veracidade da natureza armada da Caravana do herdeiro da coroa de Salomão. Como já disse, a imagem arquetípica do judeu que se instalou na nossa memória ao longo dos últimos séculos não pode ser transposta para a época de que estamos a falar. Zorobabel lidera um exército de ocupação com plenos poderes de defesa armada contra os ocupantes da Pátria Perdida. Que, como se lê, não tardaram em tentar destruí-los. O que não conseguiram, porque aqueles colonos pedreiros, carpinteiros e outros, por baixo do disfarce do trabalho, empunhavam a espada do soldado. E tinham permissão de Ciro para se defenderem e fazerem valer as suas vidas. O que é a Liberdade sem o direito à defesa da Vida?

Fica implícito no seu Edito que Ciro não concedeu aos judeus a liberdade para invadir o país e transformar Zorobabel em Josué, em plena Reconquista. Do Edito depreende-se que os judeus compraram a sua liberdade para regressar à sua pátria e estabelecerem-se na terra, seguindo as leis do estabelecimento pacífico e à submissão das novas populações aos deveres imperiais. Sob estas premissas, como vemos no relato bíblico, Zorobabel e os seus homens reconstruíram Jerusalém, estabeleceram-se e começaram a expandir-se pela herança dos hebreus.

Eis aqui o famoso Edito de Ciro

A. — Eu sou Ciro, Rei do Mundo, grande rei, rei poderoso, rei da Babilónia, rei das terras da Suméria e da Acádia, rei das Quatro Regiões, filho de Cambises, grande rei, rei de Ansán, neto de Ciro, grande rei, rei de Ansán, descendente de Teispes, grande rei, rei de Ansán, descendente de uma linhagem real sem fim, cuja lei Bel e Nabu abençoam, cujo reinado agrada aos deuses.

Quando me senti preparado, entrei na Babilónia e estabeleci o meu reino no palácio dos reis, entre júbilo e alegria. Marduk, o Deus Altíssimo, inclinou o coração dos habitantes da Babilónia para mim, e eu adorá-lo-ei todos os dias.

E continua:

B. — Pelas minhas ações, Marduk, o Senhor Todo-Poderoso, regozijou-se e a mim, Ciro, o rei que-lhe presta adoração, e a Cambises, meu filho, a força das minhas coxas, e a todas as minhas tropas Ele abençoou, e por isso, com espírito de graça, glorificamos em excelência a sua Altíssima Divindade.

Todos os reis que se sentam nos seus tronos, de um extremo ao outro das Quatro regiões, do Mar do Norte ao do Sul, que habitam em... todos os reis do Ocidente que vivem em tendas, prestaram-me tributo e vieram beijar-me os pés em Babilónia. Desde… até às cidades de Assur, Susa, Acad e Eshunna, as cidades de Zamban, Der, até aos confins da terra dos Gutis, fiz regressar os deuses aos seus locais de culto desde tempos muito antigos, às suas cidades sagradas em ruínas desde tempos remotos.

Reuni todos os seus habitantes e restaurei as suas cidades. Os deuses da Suméria e da Acádia, que Nabónido, contra a ira dos deuses, trouxe para a Babilónia, eu, pela vontade de Marduk, o Senhor Deus, fiz regressar às suas cidades de culto.

Que todos os deuses intercedam por mim perante Bel e Nabu durante todos os dias da minha vida, e digam ao meu Senhor, Marduk: «Que Ciro, o rei, teu servo, e Cambises, o seu filho...»

E conclui assim:

C. - Agora que sou rei da Pérsia, da Babilónia e das nações das Quatro Regiões com a ajuda de Marduk, declaro que respeitarei as tradições, os costumes e as religiões das nações do meu império, e não permitirei, enquanto viver, que nenhum governador sob o meu comando as insulte.

A partir de agora e para sempre, enquanto Marduk dispor do reino a meu favor, não imporei a minha religião a nenhuma nação. Cada nação é livre para a aceitar, e se alguma a rejeitar, eu nunca me levantarei contra a sua liberdade para lhe impor a minha crença. Enquanto eu for rei da Pérsia e da Babilónia, e das Quatro Regiões, não permitirei a opressão religiosa de uma nação sobre outra, e, caso isso aconteça, castigarei o opressor e devolverei o seu direito ao oprimido.

Enquanto eu for rei, não permitirei que ninguém se aproprie nem exproprie os bens alheios por meio da força ou sem compensação. Enquanto eu viver, proíbo o trabalho em condições de escravidão.

Hoje, eu declaro: que todos são livres para escolher a sua religião; que todos são livres para escolher o seu local de residência, entendendo-se que este direito não anula o dever para com a lei do próximo; que ninguém poderá ser responsabilizado pelos crimes ou faltas dos seus familiares.

Proíbo a escravatura e os meus governadores têm o dever de proibir a troca de pessoas por bens dentro dos seus domínios. Tal costume deve ser erradicado da face da Terra.

Rogo a Marduk que me conceda cumprir as minhas obrigações para com as nações da Pérsia, da Babilónia e das restantes das Quatro Regiões.

 

CAPÍTULO 7

 

36

O Quarto Homem.

 

E o que diria o príncipe assírio Nabonido sobre a passagem do império das mãos dos caldeus para as dos persas?

Será que se juntaria ao bombardeamento a partir do interior da fortaleza do inimigo?

Aceitaria Nabónido ser um peão no xadrez do Profeta-Mago?

O que poderia Nabonido oferecer-lhes em troca da possibilidade de reconstruir Nínive em algum lugar do Sul? Dar-lhes-ia aos Magos de Daniel as Chaves do Reino?

Nabónido abanou a cabeça.

«Vais retirar-te para a cidade que escolheres, longe de mim», tranquilizou-o Ciro, rindo.

Sábio, digno discípulo do Chefe dos Magos, Nabonido construiu a sua cidade num oásis perdido no coração de um Éden por ele próprio semeado. Ciro desatou a rir. A astúcia do Quarto Homem não apanhou Zorobabel de surpresa.

O mistério em questão é descobrir como é que um príncipe assírio conseguiu subir ao trono da Babilónia. Mistério cujo segredo podemos deduzir a partir da queda da dinastia de Nabucodonosor nos dias de Balthazar. Aquela jogada mestra de Estado que elevou Nabonido ao poder revela a identidade assíria do peão movido por Daniel no sentido da transferência final do império para as mãos de Ciro, quando esse peão se limitou a entregar Babilónia ao novo rei do mundo. Entrega que deixou nas mãos do seu padrinho hebreu desde o início mesmo início do seu reinado, e que se traduziu, no final do mesmo, no facto de os exércitos babilónicos se encontrarem nas mãos dos judeus. Daniel poderia muito bem ter usado a teia que teceu para dar outro golpe de Estado e colocar no trono o herdeiro de Judá. Mas não o fez.

 

37

A Reconquista do Reino Perdido.

 

A doutrina profética de Daniel encontrou em Zorobabel uma estrela cheia de vida. Tratava-se de reconstruir Jerusalém, assentar a primeira pedra do Templo e adquirir pacificamente a terra de Judá. Jerusalém funcionaria como colónia-mãe. O governador da cidade seria o chefe supremo da Colónia; sob o seu comando, os grupos escolhidos deslocar-se-iam para onde tivesse sido determinado pelo conselho dos sábios.

A segunda fase profética dizia que, no máximo, dentro de um par de séculos, o rei da Grécia entraria na Ásia e derrubaria o Império de Ciro. A conquista da Babilónia pelo Ocidente seria seguida pela divisão do império do conquistador grego em quatro reinos. Pouco tempo depois, nasceria um reino que se estenderia por todo o mundo e derrotaria os quatro reinos. Nesses dias, o anjo da liberdade tocaria a trombeta e as colónias judaicas levantariam-se em guerra de independência. Até lá, cada filho de Israel deveria ater-se ao projeto original.

 

38

Sob o jugo dos helenos.

 

Entre os historiadores do século XX, impôs-se a teoria da criação a posteriori dos livros bíblicos. Do ponto de vista do ateísmo, Alexandre, o Grande, não conquistou a Ásia posteriormente, mas sim os judeus escreveram o que aconteceu após a morte do grego.

Alheios às opiniões de todo o mundo, a partir da sua torre em Seleucia do Tigre, os Magos do Oriente acompanharam o desenrolar dos acontecimentos. As sinagogas de todo o mundo enviam-lhes notícias dos locais onde viviam, de quem governava, que sistema político tinham e das mudanças dinásticas.

«Os problemas entre persas e gregos começaram. O rei do Norte, Filipe, subjugou toda a Grécia. O dia da Vingança pelos homens de Leônidas em Termópilas começa a raiar» — trouxe na pata até Seleucia do Tigre uma pomba branca.

A resposta chegou rapidamente a Jerusalém. Dizia: «Todos os filhos de Abraão devem preparar-se para receber o Conquistador com palmas e vivas. Em breve, com a morte do filho de Filipe, o seu reino mergulhará numa longa guerra civil. Sobreviverá à sua destruição, dividindo-se em quatro reinos.»

E assim foi.

O cadáver de Alexandre ainda nem tinha arrefecido e os seus generais já se estavam a matar uns aos outros. Por fim, perceberam que o diabo lhes tinha mostrado os chifres e deixaram de se devorar uns aos outros.

Foi Seleuco I, o Invencível, quem ficou com o império de Ciro, além do que Alexandre conquistou deste lado do rio Indo. Não reconstruiu Babilónia; em vez disso, criou uma nova cidade nas margens do rio Tigre. Chamou-lhe Seleucia do Tigre.

Seleucia do Tigre foi concebida para funcionar como porto comercial interior entre o Extremo Oriente e o Ocidente. Não esqueçamos que, na sua sabedoria para controlar a passagem de caravanas e navios do Oriente para o Ocidente, o rei Salomão tinha as suas minas.

 

39

Jerusalém clama por Liberdade.

 

A parte do crocodilo ficou com Ptolomeu. Desde que viu os planos de Alexandre, o Grande, para Alexandria do Nilo, o jovem Ptolomeu foi tomado pela paixão por aquela Nova Atenas que o filho de Filipe pretendia construir nas costas do Egito.

Preciso e silencioso como o crocodilo quando ataca, com os olhinhos de cada lado do focinho, avançando pela água sem soltar ar, sem mexer uma pálpebra, mais rígido do que um tronco, o jovem Ptolomeu avançou as suas posições na véspera do funeral do seu Herói. Primeiro proclamou-se senhor e dono do Egito; depois, os deuses diriam.

 

40

A ganância dos reis.

 

A ambição sem limites de Seleuco foi o fantasma pessoal da casa dos Seleúcidas. O homem morreu com a dor de ter perdido Jerusalém numa aposta de lagartos. E a sua família, incapaz de aceitar a derrota perante as forças dos Ptolomeus egípcios. As guerras heleno-egípcias pela posse de Jerusalém foram a constante vital do Oriente Próximo desde a morte de Alexandre até ao reinado dos filhos dos Macabeus.

A instabilidade — hoje tenho Antioquia como senhora, amanhã tenho Alexandria — afetou Jerusalém. Os seus filhos, cansados, adormeceram nos louros de quem conseguiu livrar-se dos seus fantasmas messiânicos. Ao acordarem, viram-se presos nas garras de uma solução final, que não foi a primeira nem seria a última.

 

41

O Segundo Reino de Israel.

Jerusalém viveu em pânico a perseguição religiosa de Antíoco IV. Era algo que nunca lhes tinha ocorrido que lhes pudesse acontecer. As Escrituras diziam que, após os quatro reinos, viria a Liberdade. Ficaram paralisados, tal como a notícia os apanhou de surpresa. Em que é que tinham estado a pensar? No nascimento de uma criança descida do céu que viria e lhes resolveria todos os problemas?

Iriam comer perdizes e seriam felizes!

Na verdade, alguns comiam-nas todas e os outros contentavam-se com galinhas. Por isso, quando Judas Macabeu regressou à sua pátria e assumiu a liderança da resistência com o seu esquadrão de desertores, juntaram-se a ele todos aqueles que não tinham nada a perder e tudo a ganhar.

A linha do tempo desde os Macabeus até ao Nascimento foi a seguinte:

Judas Macabeu governou de 166 a 161. Judas comandou, portanto, os exércitos do Senhor de vitória em vitória durante cinco anos. Não se sabe ao certo, ou nunca foi escrita a verdade sobre a origem da formação militar deste líder. É mais do que provável que, conhecendo a estrutura dos exércitos imperiais selêucidas, este Judas fosse o chefe do Esquadrão Judaico, à frente do qual desertou ao tomar conhecimento dos planos assassinos do rei, que, ao partir para a grande aventura da conquista da Ásia perdida, ordenou ao regente do seu reino a solução final antijudaica que esteve na origem da rebelião em curso.

Talvez não seja fácil recriar a vida de Judas antes do seu aparecimento como encarnação do Martelo de Deus. Mas, como já referi, a estrutura militar do império baseava-se no recrutamento de esquadrões de todas as províncias sob a coroa do rei. Entre eles deve ter existido um Esquadrão Judeu, que, sem qualquer dúvida, serviu sob a bandeira imperial até que, ao regressar da sua frustrada invasão do Egito, o rei desse vazão à sua impotência contra Jerusalém.

Escandalizado com essa ação, é de supor que a deserção já estivesse decidida, e consumou-se quando, ao dirigir-se para a Babilónia, Antíoco IV tentou levar consigo o Esquadrão Judeu, deixando a solução final para os judeus à mercê de Lisias e dos seus generais.

A par das intenções do rei, Judas, chefe do Esquadrão Judeu, desertou com os seus homens. Ao chegar à Judeia, deparou-se com o massacre e, fugindo com o pai e os irmãos, declarou-lhe a guerra de guerrilha ao Império. Quando Apolónio, o general designado por Lisias para resolver o problema judeu, chegou à Judeia, deparou-se com um líder que conhecia perfeitamente as táticas e estratégias militares do exército imperial, sob cuja bandeira o Macabeu servira toda a sua vida.

Em 161, no entanto, abandonado pelos seus à frente dos seus 800 bravos, Judas morreu tal como viveu, vendendo cara a sua vida. Os restantes feitos bélicos de Judas estão escritos na Bíblia.

O seu irmão Jonatão sucedeu-lhe no comando militar dos exércitos do Senhor. Jonatão governou o país de 161 a 143. As aventuras militares de Jonatão também estão registadas na Bíblia. Como recebeu o sumo sacerdócio das mãos do rei Alexandre Balas, como se desenvolveu a jogar em duas frentes e como, finalmente, foi apanhado por traição e condenado à morte.

O seu irmão Simão sucedeu-lhe na liderança do país. Este governou de 143 a 135. Simão foi quem realmente conquistou a independência. Em recompensa por isso, o povo judeu concedeu aos seus herdeiros o governo a perpetuidade. Arrependido pela perda da Judeia, o rei de Antioquia ordenou ao seu general Cendebeo que a reconquistasse. Simão e os seus filhos, Judas e João, derrotaram o invasor. A liberdade não salvou Simão de cair vítima de traição, tal como o seu irmão Jonatão.

Após a morte de Simão, o seu filho João assumiu o poder. João Hircano I reinou de 135 a 105 (sempre a.C.). Se, a princípio, parecia que a invasão da Judeia pelo rei da Síria iria destruir tudo o que tinha sido conquistado pelos Macabeus, o primeiro dos Asmoneus conseguiu sair vitorioso e, além disso, conquistar Samaria, a Idumeia e territórios a leste do Jordão. Foi este João Hircano I que, ao obrigar todos os não judeus do seu reino a circuncidarem-se, preparou o caminho para o trono de Herodes.

Sucedeu-lhe o seu filho Aristóbulo I, «o rei louco». No início, o seu pai legou-lhe apenas o sumo sacerdócio, reservando o governo para a sua mãe. João enlouqueceu, prendeu a sua mãe e os seus irmãos e proclamou-se rei. Morreu um ano depois.

Das profundezas da terra surgiu um rei para Jerusalém. Chamava-se Alejandro. Reinou de 104 a 78. Sob o seu reinado, choveu sangue a jarradas sobre Jerusalém. Foi durante o seu reinado que as estrelas de Abias, pai de Zacarias, marido de Isabel e bisavô de Maria, mãe de Jesus, e Simeão, o Babilónio, pai do Simeão que acolheu nos seus braços o Menino na sua apresentação no Templo — os Semayas e Abtalión da história oficial judaica — brilharam em todo o seu esplendor.

Após a morte do asmoneu, a sua esposa Alexandra, também conhecida como a rainha Salomé, sucedeu-lhe. De 76 a 69, a rainha Alexandra governou o reino em paz. Ela restabeleceu o Sinédrio e foi durante o seu reinado que teve lugar a busca secreta pelo herdeiro da coroa de Salomão.

Após a sua morte, os seus filhos Hircano II e Aristóbulo II entraram em guerra, que em 63 fora contida por Pompeu, o Grande. Hircano II permaneceu como etnarca durante toda a vida de Pompeu, e Antípatro, pai de Herodes, de origem idumeia, como general dos exércitos da Judeia até à sua morte. Foram os partidários de Pompeu que assassinaram, em Roma, Aristóbulo II, em 49, e, no mesmo ano, o seu filho Alexandre foi assassinado em Antióquia por ordem do próprio Pompeu. Durante estes anos, teve lugar a ascensão ao cargo de arquivista do Templo de Zacarias, filho de Abias.

Por aquelas datas, os partos invadiram a Judeia e coroaram rei o outro filho de Aristóbulo II, a quem chamavam Antígono. Este cortou o nariz e as orelhas ao seu tio Hircano II e exilou-o na Nova Babilónia. Com este aliado circunstancial de Zacarias e da sua saga, na Grande Sinagoga dos Magos do Oriente, as comunicações entre os Magos e Zacarias e os seus homens aceleraram as suas idas e vindas.

De qualquer forma, eram tempos difíceis para os Asmoneus. Aproveitando-se das guerras civis romanas, Herodes derrotou Antígono, filho de Aristóbulo II, sobrinho de Hircano II, e decapitou-o (ano 37).

A tragédia dos Asmoneus ainda não tinha terminado. Sedento de sangue, o rei Herodes assassinou o neto de Aristóbulo II e o próprio Hircano II, a quem tinha chamado da Babilónia com promessas de paz e bem-estar. Também assassinou as asmoneias Alexandra e Mariana, a rainha Mariana. E, finalmente, os seus filhos Alexandre e Aristóbulo, filhos da rainha Mariana.

No ano de 7 a.C., toda a linhagem dos Asmoneus, tal como tinha sido profetizado por Abias, tinha sido eliminada da face da terra. Herodes ficou como único senhor e dono de Jerusalém. Herodes foi o primeiro e o último rei que o Segundo Reino de Israel conheceu.

 

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O Rei Messias.

José e Maria, pais de Jesus, nasceram durante os primeiros anos do reinado de Herodes. José devia ter cerca de quarenta anos quando teve o seu primogénito, e Maria um pouco menos quando deu à luz o seu filho único. Segundo este cálculo, José morreu aos sessenta anos, aproximadamente. A que idade, segundo conta a lenda, a Mãe ascendeu ao Céu na cidade de Saragoça, ninguém sabe ao certo. O facto é que as misérias que Herodes obrigou os judeus a suportar alimentaram no povo oprimido o sonho do rei Messias. Que, como todo o sonho, nunca se tornaria realidade, pelo menos enquanto estivesse nas mãos de Herodes e dos seus filhos para o impedir. No entanto, o rei Messias veio nascer longe da vista da Corte, numa manjedoura.

Avisados pela «pomba muda das terras distantes», os Reis Magos partiram da sua Torre do Oriente e correram para depositar aos pés da Sagrada Família as suas riquezas e o seu saber.

Terão precedido a Sagrada Família no caminho para o Egito, terão financiado a carpintaria do judeu e terão morrido vendo o Menino crescer?

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O Nascimento de Cristo.

Estava no Menino. Mas o Menino não o sabia. Ele descobri-lo-ia entre os Doutores do Templo, com cerca de doze anos de idade.

Ali, entre os doutores, aos doze anos, Jesus renasceu. Deus deu-lhe um novo nome: Cristo. Ele era Cristo Jesus de Yavé e Sião. Ele era o Cordeiro que o seu Pai ofereceria para a expiação dos pecados do mundo inteiro.

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A juventude do Messias.

Uma pergunta sem resposta acompanhou o Menino do Templo até Nazaré. Por que razão o seu Deus o iria abandonar à mercê dos inimigos de Cristo? Como poderia salvar o mundo das garras do Inferno a partir da Cruz que os romanos reservavam aos malditos? O que esperava Deus alcançar com um acontecimento tão trágico? Por que razão iria transformá-lo numa pedra de tropeço para os seus irmãos e amigos?

Durante toda a sua juventude, Cristo Jesus não deixou de procurar a resposta a este enigma: Deus iria estabelecer a vitória do filho de Eva sobre o sangue do filho de David. Porquê?

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A Doutrina do Reino dos Céus.

A resposta que Cristo Jesus encontrou foi esta. Deus abolirá o Império e, em seu lugar, fundará um Reino Universal. E concede a todas as criaturas a liberdade de aderir ou recusar a adesão ad eternum ao seu Reino. A Coroa deste único Reino brilha na Cabeça do seu Filho Amado, Jesus Cristo.

Quem acredita no seu Filho é declarado cidadão do seu Reino aqui e agora, e quem rejeita esta Revolução Divina fica sujeito ao Juízo Final.

De todas as medidas que, na sequência da Terceira Guerra Universal, Deus adotou contra o Inferno, esta é a Pedra Angular. As outras medidas decorrem da própria História do Cristianismo.

 

EPÍLOGO

Assim, Deus e a Lei são uma Realidade Indivisível, Incorruptível.

Antes de estabelecer a Pena de Morte, equivalente ao Exílio da Criação, YAVÉ, DEUS PAI, quis dar a conhecer aos seus filhos a Natureza do Inferno para onde seriam lançados caso voltasse a ser declarada uma guerra entre irmãos. Elevando a Lei à Natureza Divina, YAVÉ, DEUS, acreditou tornar os seus filhos mais fortes perante a Morte. Ninguém pode esquecer que ELE é o Único Ser Não Criado que conheceu a Eternidade e o Infinito antes da Criação do Novo Cosmos. Ninguém deve esquecer que a Sua Personalidade foi forjada nos Fogos da Ciência do Bem e do Mal, face à Morte, e traçando o seu caminho de mãos dadas com a Sabedoria.

O Seu Desejo de Criar Vida à Sua Imagem e Semelhança foi o Princípio da revolução que O levou a tornar-Se o Criador de Galáxias, Universos e Mundos. Ninguém pode esquecer que ELE é o Senhor do Infinito e da Eternidade; ninguém deve permitir que o Amor do Criador pela Sua Criação cegue os olhos de quem, tendo sido adotado como filho, se acredita com o direito de ser um deus «à imagem e semelhança» do seu próprio conceito do que é ser um filho de Deus.

Abrir o Cosmos aos seus filhos, ver o Criador, PAI e FILHO, em ação, teve também o sentido de abrir os olhos de todos sobre a Natureza do seu Unigénito, JESUS, sobre cuja Natureza Divina se tinha levantado a Dúvida entre os filhos de Deus, Dúvida que devia ser silenciada ao ver Deus no seu Filho.

«Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro» é a Confissão de toda a Criação, registada pela Igreja Católica Romana, nascida para ser o Templo em que esta Verdade vive para toda a eternidade.

 

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A REVOLUÇÃO INTELECTUAL DA ESTRELA DA MANHÃ

 

a verdade gerará a justiça e a justiça gerará a paz